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17 de maio de 2017

"Democracia brasileira está sob ataque", afirma Naomi Klein


Em entrevista exclusiva, autora de "Doutrina do Choque" também debate alternativas às crises econômica e ambiental
Rafael Tatemoto


São Paulo,01 de Junho de 2016 às 10:48

"O fato de que Dilma foi reeleita certamente frustou as elites brasileiras", disse a autora / Mariusz Kubik


A Doutrina do Choque, publicado em 2007, marcou uma geração ao apresentar como, ao contrário do que se afirmava, a implementação do neoliberalismo tinha poucas relações com o avanço da democracia liberal pelo mundo. A jornalista canadense Naomi Klein, autora da obra, afirmava: as visões da Escola de Chicago foram primeiramente postas em prática em regimes autoritários, justamente porque contrariam as necessidades da maior parte da população.

As ideias neoliberais, para Klein, se aproveitariam de momentos de crise para avançar. Ela concedeu uma entrevista exclusiva para o Brasil de Fato na qual analisou o momento vivido por nosso país à luz dos debates de seu livro.

Segundo ela, o programa defendido pelo governo interino de Michel Temer teria poucas condições políticas de ser implementado através de eleições. “Não há dúvida de que a democracia brasileira está sob ataque. É um tipo diferente de golpe”, afirma. “Eles estão explorando uma situação de caos, uma falta de democracia, para impor algo que eles não conseguiriam sem crise e com uma democracia real”, completa.

Confira a entrevista abaixo.

Brasil de Fato - Em seu livro, você denuncia o que considera a falsa relação entre neoliberalismo e democracia política. As ditaduras militares latino-americanas ocupam um papel importante no seu argumento. Você poderia explicar isso para nós?

Naomi Klein - O argumento que eu desenvolvo neste livro é o de que nos contaram um conto de fadas sobre como esta forma extrema do capitalismo colonizou o mundo. Essa versão fantasiosa é a de que ela se espalhou pacificamente através das democracias, que a teriam escolhido. Entretanto, se olharmos para a história dos primeiros lugares onde o neoliberalismo foi imposto, ele foi imposto exatamente no oposto [do que nos é dito]: foi necessária uma derrubada da democracia para que ele se desenvolvesse.

As raízes do pensamento neoliberal estão na Universidade de Chicago, que recebeu muito apoio dos industriais norte-americanos, que estavam bastante preocupados com uma virada à esquerda nos EUA. Ela recebeu apoio, por exemplo, do presidente do Citibank. Havia muita preocupação de que, nos anos 1960, o espectro ideológico estivesse se movendo muito à esquerda.

O que é muito interessante é que quando houve um presidente [norte-americano] de direita no final dos anos 1960 e início dos 1970, Richard Nixon, apesar de ele ter contratado conselheiros que vieram da Universidade de Chicago, eles não conseguiram impor essas mesmas ideias neoliberais extremas em uma democracia, porque essas ideias eram muito impopulares. É famoso o fato de que Nixon foi contra os conselhos dados pelos economistas da Escola de Chicago, como Milton Friedman. Ele introduziu uma série de regulações ambientais e medidas de controle de salários e preços, porque a inflação estava muito alta. Friedman disse que "Richard Nixon foi o presidente mais socialista dos EUA" [risos]. O que é importante é que enquanto este projeto falhou nos EUA naquele momento, esses mesmos economistas introduziram as ideias neoliberais na América Latina durante a década de 1970, mas apenas após a realização de golpes de Estado.

O exemplo mais famoso é o Chile: após a queda do [presidente Salvador] Allende, quando os militares fizeram uma parceria com os economistas da Escola de Chicago, tornando o país um laboratório para essas ideias. Friedman sempre afirmou que a implementação dessas ideias através da brutalidade não tinha relação com as ideias em si, mas pessoas como Orlando Letelier [diplomata chileno durante o governo Allende] diziam que eram dois lados da mesma moeda: nunca é possível introduzir, através da democracia, esse tipo de ideias em países com uma grande população pobre que se beneficia de políticas redistributivas.

Você demonstrava esperança sobre a resistência aos "choques", já que as pessoas teriam aprendido com experiências anteriores. Como você vê, por exemplo, o que aconteceu na Europa após 2008, quando a crise financeira internacional estourou e políticas de austeridade foram implementadas nos países do sul daquele continente?

Esta é uma pergunta muita boa. Eu publiquei A Doutrina do Choque em 2007, pouco antes do colapso financeiro. Honestamente, eu diria que quando escrevi, eu era ingênua. No meu entendimento de como resistir a esta tática, eu acreditava que se as pessoas realmente entendessem a tática - as crises e o caos sendo aproveitados pelas elites para defender políticas inaceitáveis que as enriquecem e empobrecem a maioria - e dissessem "não", a resistência funcionaria. Mas eu acho que o que nós vemos com a experiência do que ocorreu na Grécia e na Espanha, e, na verdade, em todo o sul da Europa, é que resistir somente dizendo "não" - "não queremos a austeridade" - é apenas o primeiro passo, não é suficiente.

O caso do Syriza é exemplar: mesmo quando governos antineoliberais ganham, há maneiras de cercá-los. É necessário haver um "não" forte à "doutrina do choque", mas, especialmente em momento de grandes crises econômicas, também deve haver um "sim" no qual acreditar: deve haver uma articulação simultânea das alternativas à "doutrina do choque", que devem ir além do status quo. Esses momentos de crises demandam uma reposta. As crises dizem que alguma coisa está errada com o sistema. Nós sabemos que a direita tem a tática do choque, mas também deve haver o que eu chamo de "choque popular": uma forma alternativa de responder às crises.

Essa é a razão pela qual eu escrevi This Changes Everything [Isto Muda Tudo, sem edição em português], porque vivemos em um tempo de múltiplas crises, nas quais o sistema está falhando em várias dimensões. Está falhando economicamente, mas também ecologicamente. O que eu acredito é que nós precisamos responder a essas múltiplas crises desenvolvendo uma visão corajosa sobre como a próxima economia deva ser, que possa nos tirar dessa situação de crises em série.

A falha da centro-esquerda, em geral, foi a de não conseguir articular uma alternativa audaciosa o suficiente não só ao neoliberalismo, mas à economia extrativista de forma ampla.

Como você analisa o impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff? Alguns analistas brasileiros utilizam suas ideias para explicar o que está ocorrendo. Você concorda com eles?

Eu vi essas análises aplicando a doutrina do choque ao que está acontecendo neste momento no Brasil, e eu penso que elas são convincentes. O fato de que ela [Dilma] foi reeleita certamente frustou as elites brasileiras. Também está claro que há temores [dos políticos] em serem investigados nos escândalos [de corrupção], o que também impulsionou este desejo [de ver Dilma fora do governo]. Eu não sei qual é a grande motivação, mas há diversas coisas acontecendo: o desejo de se livrar das acusações de corrupção e o oportunismo de "nunca desperdiçar uma crise". Esta é uma frase de Rahm Emanuel, prefeito de Chicago. Ele impôs uma série de políticas neoliberais que foram incrivelmente destrutivas, particularmente para a educação e para a habitação.

O PT, sob nenhum aspecto, foi perfeito. Entretanto, a redistribuição levou a uma redução da desigualdade e se combateu a pobreza extrema. Isso é significativo e criou as condições para a reeleição.

Eu realmente não sei qual foi a força motriz, mas a reeleição de Dilma certamente desmoralizou as elites brasileiras e as fez entender que não tinham as condições [políticas] de impôr essas políticas lucrativas para elas.

Responder a crises não é algo novo. O que eu argumento no livro ADoutrina do Choque é que o neoliberalismo foi uma maneira oportunista de fazer isso, não para resolver as causas das crises, mas apenas para impor políticas que enriquecem as elites e causam mais crises. É isso que estamos vendo no Brasil.

O FMI [Fundo Monetário Internacional] acabou de publicar um relatório há alguns dias no qual diz que o neoliberalismo falhou completamente: não produziu crescimento, produziu desigualdade massiva e instabilidade. E essas são precisamente as políticas que estão sendo impostas no Brasil como uma suposta solução à crise econômica, ainda que saibamos que não funciona. Isso não ocorre porque as elites brasileiras não leram o relatório do FMI, mas sim porque são políticas incrivelmente lucrativas para uma minoria da população. Eles estão explorando uma situação de caos, uma falta de democracia, para impor algo que eles não conseguiriam sem crise e com uma democracia real.

Você concorda com a ideia de que se trata de um golpe?

Não há dúvida que a democracia brasileira está sob ataque. O combate à corrupção foi apenas um pretexto para se livrar da presidenta eleita democraticamente. É um tipo diferente de golpe. Não se trata de um golpe militar, com tanques nas ruas - e nós não devemos dizer que são a mesma coisa -, mas, efetivamente, há um profundo ataque à democracia acontecendo.

A “história oficial” do neoliberalismo aponta os governos Reagan [EUA] e Thatcher [Reino Unido], em países tidos como democráticos, como a origem dessas políticas. Em seu livro, porém, você cita como Thatcher combateu os sindicatos. Até mesmo em democracias, o neoliberalismo é autoritário? Devemos esperar a mesma situação no Brasil?

O que eu argumento em A Doutrina do Choque é que Thatcher não foi capaz de impôr a agenda neoliberal no Reino Unido no seu primeiro mandato. Ela até escreveu uma carta a [Friedrich von] Hayek que eu cito no livro: em uma democracia, é impossível fazer o que foi feito no Chile. O que aconteceu é que a Guerra das Malvinas [da Inglaterra contra a Argentina] estourou e ela explorou o sentimento hipernacionalista e se reinventou como a "primeira-ministra para tempos de guerra", tal como Churchill, e conseguiu ganhar sua reeleição, e então atacou os sindicatos.

Os sindicatos são sempre uma grande barreira à implementação da agenda neoliberal. Eu conto a história do que ocorreu na Bolívia nos anos 1980, quando líderes sindicais eram sequestrados para que não pudessem se organizar, enquanto o choque neoliberal era imposto.

Obviamente, haverá algum tipo de estratégia para desmobilizar. Mas eu acredito que, no Brasil, o jogo ainda não terminou. As histórias estão mudando a todo momento, as pessoas estão fazendo exatamente o que elas deveriam fazer, resistindo nas ruas. Os vazamentos das conversas revelando a trama antes do golpe continuam a criar uma crise [política]. Isso precisa ser divulgado fora do Brasil, colocando pressão sobre governos estrangeiros. Nós não precisamos aceitar a ideia de que tudo vai continuar como está.

Recentemente, tivemos um grande desastre ambiental no Brasil. Em sua última obra, This Changes Everything, você coloca que o capitalismo não só aumentou as desigualdades, mas, hoje, também representa um risco para a própria existência da humanidade. Pode nos explicar isso?

O que sabemos é que se continuarmos fazendo o que estamos fazendo, alcançaremos um nível de aquecimento insustentável. Estamos em um momento em que o capitalismo e a busca pelo crescimento perpétuo estão em guerra contra a vida na Terra. Estamos chegando a um nível em que boa parte do planeta será inabitável por humanos. Está acontecendo mais rápido do que o imaginado. O branqueamento dos corais ano passado foi em uma escala sem precedentes. A Índia e o Paquistão estão passando por ondas de calor de 51º C - algo que os humanos não conseguem aguentar. E isso representa, na média global, um aumento de apenas 1º C - e nós estamos caminhando para um aumento de 6º C, a não ser que ações governamentais diferentes das que estão sendo implementadas até agora sejam tomadas.

As crises são sinais nos dizendo que há algo errado na forma como organizamos nossa sociedade. As crises econômicas apontam para o fato de que é algo sistêmico. Quando nós pensamos nas décadas de 1920 e 1930, quando ocorreu a Grande Depressão, a esquerda respondeu com alternativas muito fortes: propostas sobre como reinventar aquele sistema. Quando nós enfrentamos um choque climático - enchentes, incêndios, grandes tempestades - nós devemos responder tentando mudar o sistema para que nós paremos de enfrentar esses choques.

O Acordo de Paris [sobre o clima] não está próximo o suficiente das nossas necessidades, ele não tem poder vinculativo - é por isso que Donald Trump disse que cancelaria [a participação dos EUA no acordo].

Isso está ocorrendo porque temos um sistema que nos encoraja a empreender uma busca pelo crescimento infinito a qualquer preço. Nós temos economias extrativistas, e vemos que governos de esquerda também falharam em confrontar essa lógica. Isso é verdade para a Venezuela, o Equador e para o Brasil também.

É por isso que digo que, nesses momentos de crise, o sistema revela a si mesmo como irrealizável. Nós devemos dizer "não" à doutrina do choque, mas também devemos ir além, propor um "sim". Temos que elaborar uma visão que vá até a raiz, tanto da instabilidade econômica, como da ecológica. Nesse momento, esse é o verdadeiro desafio para as brasileiras e os brasileiros. O que nós sabemos de outros países é que o "não" sozinho não é suficiente, porque em crises econômicas, as pessoas querem soluções. Elas não querem a doutrina do choque, então a pergunta é: Qual a solução? Qual o plano?

Essa era minha próxima pergunta…

Eu não posso responder para o contexto brasileiro, mas eu posso dizer que no Canadá, onde vivo, estive envolvida em um processo com diversos movimentos sociais que culminou no Manifesto do Salto [Leap Manifesto]. É uma antevisão da sociedade que queremos: como passar de uma economia extrativista - que explora sem fim a Terra, os corpos e a sociedade - para um modelo que respeite o planeta e que garanta o respeito pelo outro. Nós elaboramos 15 demandas por políticas que nos fariam chegar lá. Foi um processo maravilhoso de conectar movimentos - ambientalistas; organizações contra austeridade, contra tratados de livre comércio como o TTPP; a favor dos direitos indígenas.

Nossa perspectiva se fundamentou na visão de mundo dos povos originários, aprendendo com as primeiras nações do nosso país. Defendemos, por exemplo, o uso de energia 100% renovável, mas queremos também mudar a forma de propriedade: nem o controle das grandes corporações, nem do grande poder estatal, queremos controle comunitário. Além disso, os primeiros beneficiários desse novo modelo devem ser as comunidades atingidas pela indústria suja. Assim, [no Canadá], em primeiro lugar os indígenas e, logo em seguida, os latinos e negros.

É o que chamamos de transição justa para a próxima economia. Nós tentamos elaborar isso, talvez seja útil para as pessoas no Brasil conhecerem e se inspirarem a realizar um processo semelhante: se juntar e imaginar o desenho de uma economia pós-extrativista.

Edição: Simone Freire

3 de dezembro de 2015

Educação enlatada - México

Em respeito aos professores e alunos das escolas da rede estadual de São Paulo, postamos novamente esse maravilhoso documentário sobre o que aconteceu com o México com uma partido neoliberal, muito similar ao partido do atual governador paulista.




Pulicado em 10 de Agosto de 2009:
Um documentário que todos os professores do mundo deveriam ver.

"Grain of sand" fala sobre a luta dos professores de Oaxaca no México, país governado há mais de 70 anos pelo PRI, famoso pela corrupção e alinhamento aos interesses dos EUA . O filme trata de como a destruição da educação é um projeto articulado a partir de diretrizes internacionais.


Há poucos anos, alunos, pais e professores fizeram passeatas contra a privatização das escolas técnicas, exigência do Banco Mundial e FMI. O Governo respondeu fechando-as de imediato. Quando os professores e alunos ocuparam estas escolas, foram presos e torturados em prisões de segurança máxima. Centenas de professores eforam mortos ou desaparecidos no país.


As políticas implementadas na educação mexicana são as mesmas que muitas vezes vemos travestidas de “modernas” em muitos Estados do Brasil. O filme proporciona excelentes discussões sobre o que representa a educação na sociedade capitalista neoliberal. O baixo nível das escolas para a população não é um produto da incompetência, mas sim da conivência para formar um geração de semi-escravos, de mão-de-obra barata.
Nas palavras de Eduardo Galeano, “Este é um sistema que arrebenta tudo o que toca: destrói em pedaços; e que nos ensina que se vive para TER e que se vive para trabalhar, em vez de viver para SER”
(Comentários originais: docverdade)

14 de julho de 2015

Discurso fundamental - Papa Francisco

Independente da religião, este discurso é fundamental para o desenvolvimento da humanidade. 


(O papa Francisco em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. Foto: José Lirauze/ABI)

Leia trechos do histórico discurso do Papa Francisco aos movimentos sociais na noite de quinta-feira 9 em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. No final do discurso de quase uma hora, o papa argentino pede que rezem por ele. Oxalá seja apenas força de expressão.

LÓGICA DO LUCRO – “Reconhecemos que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem teto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas na sua dignidade? Reconhecemos que as coisas não andam bem, quando explodem tantas guerras sem sentido e a violência fratricida se apodera até dos nossos bairros? Reconhecemos que as coisas não andam bem, quando o solo, a água, o ar e todos os seres da Criação estão sob ameaça constante? Então digamos sem medo: precisamos e queremos uma mudança.

Nas vossas cartas e nos nossos encontros, relataram-me as múltiplas exclusões e injustiças que sofrem em cada atividade laboral, em cada bairro, em cada território. São tantas e tão variadas como muitas e diferentes são as formas de enfrentá-las. Mas há um elo invisível que une cada uma destas exclusões: conseguimos reconhecê-lo? É que não se tratam de questões isoladas. Pergunto-me se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se tornou global. Reconhecemos que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza?

Se é assim, insisto, digamos sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos…. E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia são Francisco.”

GLOBALIZAÇÃO DA ESPERANÇA – “Queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança que toque também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença.

Hoje quero refletir convosco sobre a mudança que queremos e precisamos. Como sabem, recentemente escrevi sobre os problemas da mudança climática. Mas, desta vez, quero falar duma mudança noutro sentido. Uma mudança positiva, uma mudança que nos faça bem, uma mudança, pode-se dizer, redentora. Porque é dela que precisamos. Sei que buscais uma mudança e não apenas vós: nos diferentes encontros, nas várias viagens, verifiquei que há uma expectativa, uma busca forte, um anseio de mudança em todos os povos do mundo. Mesmo dentro da minoria cada vez mais reduzida que pensa sair beneficiada deste sistema, reina a insatisfação e sobretudo a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os liberte desta tristeza individualista que escraviza.”

DESTRUIÇÃO DA NATUREZA – “O tempo, irmãos e irmãs, o tempo parece exaurir-se; já não nos contentamos com lutar entre nós, mas chegamos até a assanhar-nos contra a nossa casa. Hoje, a comunidade científica aceita aquilo que os pobres já há muito denunciam: estão a produzir-se danos talvez irreversíveis no ecossistema. Está-se a castigar a terra, os povos e as pessoas de forma quase selvagem. E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava ‘o esterco do diabo': reina a ambição desenfreada de dinheiro. A atenção ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade entre os homens, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa comum.

Não quero alongar-me na descrição dos efeitos malignos desta ditadura sutil: vocês os conhecem! Mas também não basta assinalar as causas estruturais do drama social e ambiental contemporâneo. Sofremos de um certo excesso de diagnóstico, que às vezes nos leva a um pessimismo charlatão ou a rejubilar com o negativo. Ao ver a crônica negra de cada dia, pensamos que não haja nada que se possa fazer para além de cuidar de nós mesmos e do pequeno círculo da família e dos amigos.”

O PAPEL DE CADA UM – “Que posso fazer eu, recolhedor de papelão, catador de lixo, limpador, reciclador, frente a tantos problemas, se mal ganho para comer? Que posso fazer eu, artesão, vendedor ambulante, carregador, trabalhador irregular, se não tenho sequer direitos laborais? Que posso fazer eu, camponesa, indígena, pescador que dificilmente consigo resistir à propagação das grandes corporações? Que posso fazer eu, a partir da minha comunidade, do meu barraco, da minha povoação, da minha favela, quando sou diariamente discriminado e marginalizado? Que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele missionário que atravessa as favelas e os paradeiros com o coração cheio de sonhos, mas quase sem nenhuma solução para os meus problemas? Muito! Podem fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 Ts” (trabalho, teto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se apequenem!

Este apego ao bairro, à terra, ao território, à profissão, à corporação, este reconhecer-se no rosto do outro, esta proximidade no dia-a-dia, com as suas misérias e os seus heroísmos cotidianos, é o que permite realizar o mandamento do amor, não a partir de ideias ou conceitos, mas a partir do genuíno encontro entre pessoas, porque não se amam os conceitos nem as ideias; amam-se as pessoas. A entrega, a verdadeira entrega nasce do amor pelos homens e mulheres, crianças e idosos, vilarejos e comunidades… Rostos e nomes que enchem o coração. A partir destas sementes de esperança semeadas pacientemente nas periferias esquecidas do planeta, destes rebentos de ternura que lutam por subsistir na escuridão da exclusão, crescerão grandes árvores, surgirão bosques densos de esperança para oxigenar este mundo.

Vejo, com alegria, que trabalhais no que aparece ao vosso alcance, cuidando dos rebentos; mas, ao mesmo tempo, com uma perspectiva mais ampla, protegendo o arvoredo. Trabalhais numa perspectiva que não só aborda a realidade setorial que cada um de vós representa e na qual felizmente está enraizada, mas procurais também resolver, na sua raiz, os problemas gerais de pobreza, desigualdade e exclusão.

Felicito-vos por isso. É imprescindível que, a par da reivindicação dos seus legítimos direitos, os povos e as suas organizações sociais construam uma alternativa humana à globalização exclusiva. Vós sois semeadores de mudança. Que Deus vos dê coragem, alegria, perseverança e paixão para continuar a semear. Podeis ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, vamos ver os frutos. Peço aos dirigentes: sede criativos e nunca percais o apego às coisas próximas, porque o pai da mentira sabe usurpar palavras nobres, promover modas intelectuais e adotar posições ideológicas, mas se construirdes sobre bases sólidas, sobre as necessidades reais e a experiência viva dos vossos irmãos, dos camponeses e indígenas, dos trabalhadores excluídos e famílias marginalizadas, de certeza não vos equivocareis.

No coração, tenhamos sempre a Virgem Maria, uma jovem humilde duma pequena aldeia perdida na periferia dum grande império, uma mãe sem teto que soube transformar um curral de animais na casa de Jesus com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Maria é sinal de esperança para os povos que sofrem dores de parto até que brote a justiça.

POR UMA ECONOMIA DE INSPIRAÇÃO CRISTÃ – “Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra.

A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas a condigna administração da casa comum. Isto implica cuidar zelosamente da casa e distribuir adequadamente os bens entre todos. A sua finalidade não é unicamente garantir o alimento ou um ‘decoroso sustento’. Não é sequer, embora fosse já um grande passo, garantir o acesso aos ‘3 Ts’ pelos quais combateis. Uma economia verdadeiramente comunitária – poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã – deve garantir aos povos dignidade, ‘prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos’. Isto envolve os ‘3 Ts’, mas também o acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao desporto e à recreação. Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar de uma infância sem privações, desenvolver os seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de atividade e ter acesso a uma digna aposentadoria na velhice. É uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social. Vós, e outros povos também, resumis este anseio duma maneira simples e bela: ‘viver bem’.

Esta economia é não apenas desejável e necessária, mas também possível. Não é uma utopia, nem uma fantasia. É uma perspectiva extremamente realista. Podemos consegui-la. Os recursos disponíveis no mundo, fruto do trabalho intergeneracional dos povos e dos dons da criação, são mais que suficientes para o desenvolvimento integral de ‘todos os homens e do homem todo’. Mas o problema é outro. Existe um sistema com outros objetivos. Um sistema que, apesar de acelerar irresponsavelmente os ritmos da produção, apesar de implementar métodos na indústria e na agricultura que sacrificam a Mãe Terra na ara da ‘produtividade’, continua a negar a milhares de milhões de irmãos os mais elementares direitos econômicos, sociais e culturais. Este sistema atenta contra o projeto de Jesus.

A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, o encargo é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e às pessoas o que lhes pertence. O destino universal dos bens não é um adorno retórico da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada.”

PÁTRIA GRANDE – “Nos últimos anos, depois de tantos mal-entendidos, muitos países latino-americanos viram crescer a fraternidade entre os seus povos. Os governos da região juntaram seus esforços para fazer respeitar a sua soberania, a de cada país e a da região como um todo que, de forma muito bela como faziam os nossos antepassados, chamam a ‘Pátria Grande’. Peço-vos, irmãos e irmãs dos movimentos populares, que cuidem e façam crescer esta unidade. É necessário manter a unidade contra toda a tentativa de divisão, para que a região cresça em paz e justiça.

Apesar destes avanços, ainda subsistem fatores que atentam contra este desenvolvimento humano equitativo e restringem a soberania dos países da ‘Pátria Grande’ e doutras latitudes do Planeta. O novo colonialismo assume variadas fisionomias. Às vezes, é o poder anônimo do ídolo dinheiro: corporações, credores, alguns tratados denominados ‘de livre comércio’ e a imposição de medidas de ‘austeridade’ que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres. Os bispos latino-americanos denunciam-no muito claramente, no documento de Aparecida, quando afirmam que ‘as instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações’. Noutras ocasiões, sob o nobre disfarce da luta contra a corrupção, o narcotráfico ou o terrorismo – graves males dos nossos tempos que requerem uma ação internacional coordenada – vemos que se impõem aos Estados medidas que pouco têm a ver com a resolução de tais problemáticas e muitas vezes tornam as coisas piores.”

MONOPÓLIO MIDIÁTICO – “Da mesma forma, a concentração monopolista dos meios de comunicação social que pretende impor padrões alienantes de consumo e certa uniformidade cultural é outra das formas que adota o novo colonialismo. É o colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África, muitas vezes pretende-se converter os países pobres em ‘peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigante’.”

NÃO AO COLONIALISMO – “Temos de reconhecer que nenhum dos graves problemas da humanidade pode ser resolvido sem a interação dos Estados e dos povos a nível internacional. Qualquer ato de envergadura realizado numa parte do Planeta repercute-se no todo em termos econômicos, ecológicos, sociais e culturais. Até o crime e a violência se globalizaram. Por isso, nenhum governo pode atuar à margem de uma responsabilidade comum. Se queremos realmente uma mudança positiva, temos de assumir humildemente a nossa interdependência. Mas interação não é sinônimo de imposição, não é subordinação de uns em função dos interesses dos outros. O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os males que vêm juntos… Precisamente porque, ao pôr a periferia em função do centro, nega-lhes o direito a um desenvolvimento integral. Isto é desigualdade, e a desigualdade gera violência que nenhum recurso policial, militar ou dos serviços secretos será capaz de deter.

Digamos NÃO às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Bem-aventurados os que trabalham pela paz.”

PERDÃO AOS POVOS ORIGINÁRIOS – “Alguém poderá, com direito, dizer: ‘Quando o Papa fala de colonialismo, esquece-se de certas ações da Igreja’. Com pesar, digo: Cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus. Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM e quero reafirmá-lo eu também. Como são João Paulo II, peço que a Igreja ‘se ajoelhe diante de Deus e implore o perdão para os pecados passados e presentes dos seus filhos’. E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi são João Paulo II: peço humildemente perdão, não só para as ofensas da própria Igreja, mas também para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América. E junto, junto a este pedido de perdão e para ser justo, também quero que recordemos os milhares de sacerdotes, bispos, que se opuseram fortemente à lógica da espada, com a força da cruz. Houve pecado, houve pecado e abundante, e por isto pedimos perdão, e peço perdão, porém também ali, onde teve pecado, onde abundou o pecado, superabundou a graça através destes homens que defenderam a justiça dos povos originários.”

DEFESA DA MÃE TERRA – “A casa comum de todos nós está a ser saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave.Vemos, com crescente decepção, sucederem-se uma após outra cúpulas internacionais sem qualquer resultado importante. Existe um claro, definitivo e inadiável imperativo ético de atuar que não está a ser cumprido. Não se pode permitir que certos interesses – que são globais, mas não universais – se imponham, submetendo Estados e organismos internacionais, e continuem a destruir a Criação. Os povos e os seus movimentos são chamados a clamar, mobilizar-se, exigir, pacífica mas tenazmente, a adoção urgente de medidas apropriadas. Peço-vos, em nome de Deus, que defendais a Mãe Terra.”

MOVIMENTOS SOCIAIS – “O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Estou convosco. Digamos juntos do fundo do coração: nenhuma família sem teto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice. Continuai com a vossa luta e, por favor, cuidai bem da Mãe Terra.”

Veja aqui o texto na integra: http://pt.radiovaticana.va

31 de janeiro de 2014

Mujica: Política abandonou filosofia; virou receituário econômico




“Eu tenho uma preocupação permanente. Temos que semear uma cultura de transformação porque dirigentes não mudam a história da humanidade; a história da humanidade é mudada somente pelos povos. Ainda assim, temos responsabilidades”, afirmou o presidente o Uruguai, José Pepe Mujica durante o encerramento da 2ª Cúpula da Celac ao pedir uma mudança na mentalidade dos atuais governos: “não se muda a história por decreto”.

“A globalização é um fato que vai a caminho do desastre e não formos capazes de fazer aflorar uma consciência”| Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

“Temos que defender a vida o que significa deixar pelo caminho as arestas do desperdício, da contaminação e da escravidão do tempo humano. (…) A mudança climática é uma obrigação humana. (…) Todos vamos pagar o custo com a vida humana. Por isso temos que nos integrar. Nenhum país tem peso para enfrentar sozinho esta incerteza”, refletiu.

“Será longa esta marcha. Temos uma velha dívida. Vivemos mais de um século olhando para a Europa e os Estados Unidos. [Com a Celac] demos um passo fantástico, mas temos que construir uma inteligência a favor da integração. Integrar fronteiras, comunicação, saúde, segurança, cultura, universidades, pesquisas dos povos latinos”, pontuou.

“A globalização é um fato que vai a caminho do desastre e não formos capazes de fazer aflorar uma consciência”. O mandatário questionou ainda a veracidade de que a região da Celac é uma área livre de armas nucleares: “como pode estar livre de armas nucleares nossas terras quando submarinos nucleares passeiam por nossas águas?”.

Mujica também opinou que “uma das desgraças da política é ter abandonado o campo da filosofia e ter se transformado em um receituário econômico. (…) Se seguirmos pensando somente no nosso, a civilização está condenada”, concluiu o presidente uruguaio.



Da Redação do Portal Vermelho,

Vanessa Martina Silva

5 de junho de 2013

Brilhante Presidente Mujica


“Estão loucos. Que prêmio da paz, nem prêmio de nada. Se me derem um prêmio desses seria uma honra para os humildes do Uruguai conseguirem um dinheiro a mais para fazer casinhas… no Uruguai temos muitas mulheres sozinhas com quatro, cinco filhos porque os homens as abandonaram e lutamos para que possam ter um teto digno… Bom, para isso teria sentido. Mas a paz se leva interiormente. E o prêmio eu já tenho. O prêmio está nas ruas do meu país. No abraço dos meus companheiros, nas casas humildes, nos bares, nas pessoas comuns. No meu país eu caminho pela rua e vou comer em qualquer bar sem essa parafernália de gente de Estado.”

18 de março de 2013

O modelo de crescimento do Brasil

Por Júlio José Chiavenato

A globalização não surgiu do nada. É a consequência de um processo de expansão capitalista beneficiado pelo fim do socialismo soviético. Mais do que o fim soviético, o capitalismo triunfante beneficiou-se do desgaste das ideologias e da substituição das utopias pelo consumismo.

A derrota dos processos ideológicos ou utópicos não aconteceu pelo debate de ideias ou por uma opção da maioria. É uma sequência de várias etapas históricas em que os valores humanos foram, aos poucos, mas inexoravelmente, substituídos pelo pragmatismo político e econômico.

Como sabemos, não se faz história ou política em torna da palavra “se”. Mas é preciso lembrar que “se” não fosse o oportunismo e o fascínio pelo poder político o Brasil não entraria neste período globalizante em tão precárias condições. Os nossos indicadores sociais e econômicos são péssimos em relação ao nosso potencial. Hoje, nem se pode repetir, como no tempo da ditadura militar, as palavras do General Médici: “o país vai bem, mas o povo vai mal”.

Mesmo sem avaliar a conduta política dos responsáveis, podemos verificar que a partir de 1955 o Brasil se curvou a uma das mais agressivas investidas do capital estrangeiro, abalando a nossa infraestrutura de transportes em favor dos investimentos multinacionais.
Até 1950, o principal meio de transporte no Brasil eram as ferrovia.

Esse período, cinco anos depois da segunda guerra mundial, é marcado pelo começo da guerra fruía, quando Estados Unidos e União Soviética disputavam a hegemonia entre os países do mundo.

Caracteriza-se, também, pela recuperação da economia norte-americana e a retomada dos seus investimentos na América Latina, explorando inclusive “bens de capital”, na forma de maquinaria obsoleta, Recuperando-se internamente, o capitalismo norte-americano criou novas tecnologias sem o ônus de perder as velhas, que foram exportadas para o Terceiro Mundo.

Trata-se de um processo “maquiavélico”: ao exportar velhas fábricas, os Estados Unidos “modernizaram” os países do Terceiro Mundo, aumentando o poder aquisitivo daqueles que consumiam suas exportações. Ao mesmo tempo, esses países, como o Brasil, fabricavam produtos inferiores e mais caros que os Estados Unidos; portanto, não significavam risco de concorrência no mercado internacional. No caso brasileiro, um exemplo foram as máquinas enviadas para fabricar o Aero Willys e o Jeep, entre outros veículos, que representavam o que havia de mais obsoleto na indústria automobilística norte-americana.

O Brasil, que historicamente sempre caminhou a reboque do capital estrangeiro – inglês até 1930, norte-americano depois -, começava a viver uma grande febre de progresso em 1955. Eram os tempos de progredir “50 anos em 5”, como prometia o presidente Juscelino Kubitschek. Na época, um dos grandes símbolos do progresso era o automóvel: para ser um país progressista, O Brasil precisava ter uma indústria “nacional” de veículos.

A implantação da indústria automobilística no nosso país resultou na impostação de fábricas obsoletas, em desuso a Alemanha, França, Itália e Estados Unidos. O governo abandonou as ferrovias, que entraram em decadência, e construiu estradas asfaltadas, por onde deveria trafegar a nossa frota.

Como se sabe, o transporte ferroviário é o mais barato do mundo. O rodoviário, o mais caro. Além disso, a construção de estradas asfaltadas implicava, posteriormente, o uso de petróleo, que não tínhamos. Os automóveis exigiam gasolina. Para construir estradas e abastecer veículos, aumentamos as importações de petróleo. Enquanto isso, a rede ferroviária era abandonada. Em consequência o transporte de cargas passou a ser feito por caminhões. O preço do frete subiu, a dívida externa aumentou; o balanço do comércio exterior passou a ser negativo, pelas crescentes importações de petróleo.

As complicações – que tiveram reflexos no futuro – não paravam aí. Os navios petroleiros que por aqui chagavam não podiam voltar vazios aos seus portos. Por uma série de contratos internacionais, o lastro para esses navios era fornecido pelo Brasil: em gasolina. Mas como o preço internacional da gasolina era mais baixo que o praticado Np Brasil, “exportávamos” gasolina para os países produtores de petróleo e a um preço menor do que o pago pelos brasileiros.

No processo há outras “peças” importantes. Por exemplo, as fábricas instaladas no Brasil eram “montadoras”. As suas velhas máquinas entraram no país sem pagar impostos. As fábricas foram construídas com financiamentos e isenções fiscais. Os lucros obtidos pelas multinacionais do setor foram desproporcionalmente maiores do que o capital investido. A maior parte desses lucros era remetida para os países de origem.

Texto extraído do livro:
“Ética globalizada & Sociedade de consumo”

31 de agosto de 2012

Má conduta da Nestlé será exposta na Escócia


A Nestlé, maior companhia de gêneros alimentícios do mundo, será exposta por MÁ CONDUTA, incluindo marketing agressivo de alimentos para bebês, quebra de sindicatos, destruição ambiental e exploração de fornecedores, numa audiência pública em Edinburgh, Escócia, no dia 23 de outubro, ocasião em que especialistas apresentarão evidências dos fatos.
A ONG  IBFAN (International Baby Food Action Network) - Rede de Ação Internacional de Alimentos Infantis, que celebra 25 anos de campanha para proteger os bebês e suas famílias, apresentará monitoramentos com resultados de 69 países que demonstram que a Nestlé continua sendo a pior empresa de alimentos infantis do planeta, por fomentar o uso da alimentação artificial em lugar da amamentação, violando normas do Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno, monitorado em todo o mundo pela Organização Mundial da Saúde e o UNICEF, órgãos da ONU.
A Nestlé é alvo de boicote em 20 países por má conduta e falta de ética. Também outras preocupações com suas atividades serão expostas por especialistas no assunto. Mark Ballard mostrará um painel internacional. Serão realçados em grupos de trabalho os desmandos da empresa, e uma exposição paralela promoverá o boicote à Nestlé (incluindo o Prêmio Comédia - Nestlé Perrier Comedy Awards) no Edinburgh Fringe Festival.
O Movimento Amigos do Circuito das Águas Mineiro (MACAM) apresentará seu empenho em vencer a ação legal contra a Nestlé pela destruição ambiental e os crimes contra a pessoa em razão de desmineralização de água mineral, superexploração e engarrafamento predatório na estância hidro-mineral de São Lourenço, Minas. Apesar de prometer a juiz, e em audiência pública na Câmara de Deputados, que iria fechar suas operações em outubro, a Nestlé aumentou  o volume de bombeamento ainda mais, o que já vem causando danos às fontes medicinais do Parque das Águas.
O movimento “Campanha de Solidariedade à Colômbia” irá descrever como os sindicalistas têm sido alvos de grupos de extermínio paramilitares, depois de serem rotulados como “inimigos da empresa” pelos executivos da Nestlé Colômbia.
Organizações como a OXFAM INTERNATIONAL fazem campanha junto com produtores de café para persuadir governos e fabricantes como a Nestlé a pagar melhor aos seus fornecedores
Os movimentos irão discutir estratégias para agir contra os desmandos da Nestlé. Este encontro está sendo conduzido em parceria com a Simpol UK (Simultaneous Policy - Política Simultânea), que vem desenvolvendo planos de ação para serem aplicados a corporações, e em conjunto com o grupo University of Edinburgh People and Planet.
Esses encontros dão continuidade a similar acontecido na cidade natal da Nestlé, Vevey, Suíça  em junho de 2004, patrocinado pelas ONGs Declaração de Berna, ATTAC – Suíça e Greenpeace - Suíça, em que a Attac lançou o livro “O Império Nestlé.”
Um workshop nos mesmos moldes já aconteceu no Fórum Social Europeu em 16 de outubro em Londres .
Para mais informações contate  Mike Brady, Campaigns and Networking Coordenador , Baby Milk Action, 23 St. Andrew's Street, Cambridge, CB2  3AX.
 Tel: 01223 464420. Mobile: 07986 736179. Email:  mikebrady@babymilkaction.org

Mais info sobre  a  campanha brasileira  veja em http://www.corporatewatch.org.uk/news/nestle_keep_at_it.htm  e o artigo do Franklin
no boletim da  Simpol-UK em http://spdev.gn.apc.org/

15 de março de 2012

Quando a comida vira um produto financeiro

Por Assis Ribeiro
Do Le Monde Diplomatique

O novo diretor-geral da ONU para a Alimentação e a Agricultura, José Graziano da Silva, promete aumentar os recursos destinados à África, a “prioridade” de seu mandato. Mas, além da ajuda pontual – necessária –, será preciso tirar as matérias-primas agrícolas do sistema de especulação financeira

4 de fevereiro de 2012

A história do Petróleo

A incrível história do pacto secreto que deu origem ao controle oligopólico no mundo do fornecimento de petróleo bruto.

Em 27 de agosto de 1928, magnatas de petróleo de todo o mundo reuniram-se em segredo para formar uma aliança para evitar o confronto e a divisão.

O Acordo Achnacarry (Escócia) marcou a criação de um cartel internacional do petróleo, cujos membros se reservavam o direito de partilhar o mercado de petróleo e fixar os preços como quisessem.

O contrato entre as "sete irmãs ", como eram conhecidas as gigantes do petróleo, tornaram essas empresas as mestres do mundo moderno. Esta série retrata um século de história do petróleo à luz deste acordo secreto.

Reconstruções, arquivos, entrevistas com os protagonistas e especialistas que contribuíram para uma viagem itinerante através do mapa do petróleo bruto, o que revela o roubo extraordinário e gigantesco cometido por uns poucos magnatas sem escrúpulos.

Fonte do texto acima: http://www.rtp.pt/programas-rtp/index.php?p_id=28268&e_id=1&c_id=8&am...

1 de fevereiro de 2012

Remessa de lucros sangra o Brasil US$ 38,1 BI




Por Altamiro Borges

No ano passado, as multinacionais enviaram US$ 38,1 bilhões de dólares para suas matrizes, 25% a mais do que 2010. Essa notícia foi publicada no jornal O Globo, sem maior alarde, em matéria da repórter Gabriela Valente. A informação é gravíssima e mostra o grau preocupante da sangria de recursos do Brasil, aonde inexistem mecanismos mais rígidos de controle dos fluxos de capital.



“Em um ano marcado pela crise financeira internacional, a remessa de lucros de empresas estrangeiras instaladas no Brasil para o exterior quebrou todos os recordes e foi a maior em 64 anos... Essa despesa corresponde à maior parte do déficit das contas externas do país (que correspondem a nossas transações com o resto do mundo), que fecharam o ano passado no vermelho em US$52,6 bilhões”.

US$ 39,6 bilhões em 2012

Ainda segundo a reportagem, a expectativa é que esta sangria cresça ainda mais em 2012. A projeção do Banco Central é de que as multis remetam ao exterior US$ 39,6 bilhões neste ano. Por outro lado, em função do agravamento da crise mundial, a tendência é da redução dos investimentos estrangeiros, que há quatro anos cobrem os rombos das contas externas.

Os capitalistas estrangeiros e a sua mídia tratam essa distorção como natural. “É razoável as remessas de lucro crescerem, porque estamos falando de uma economia que cresce mais do que o resto do mundo”, justifica a economista-chefe do Banco RBS, Zeina Latif. Para Johnny Kneese, economista da corretora Levycam, o aumento recorde das remessas decorre do socorro às matrizes em crise nas potências capitalistas.

A gula do capital estrangeiro

Em síntese, o capital estrangeiro sangra o Brasil nas duas pontas para manter seus lucros no exterior. Ele ganha com a especulação financeira, aproveitando-se das altas taxas de juros do país, e ganha com os chamados investimentos diretos, via novas plantas ou fusões, com a remessa descontrolada dos lucros. Ele joga o ônus da crise mundial nas costas dos trabalhadores.

O governo Dilma, porém, parece não se preocupar e relativiza a grave sangria. “As remessas em função de crise, para enviar liquidez para matrizes, foram pontuais. As remessas tiveram o comportamento esperado. Não houve surpresa”, afirma Túlio Maciel, chefe do Departamento Econômico do Banco Central. Até quando essa política vai suportar o peso da grave crise internacional?

Postado por Miro

A Ordem Criminosa do Mundo

19 de janeiro de 2012

Servidão Moderna

A servidão moderna é uma escravidão voluntária, consentida pela multidão de escravos que se arrastam pela face da terra. Eles mesmos compram as mercadorias que os escravizam cada vez mais.

Eles mesmos procuram um trabalho cada vez mais alienante que lhes é dado, se demonstram estar suficientemente domados. Eles mesmos escolhem os mestres a quem deverão servir. Para que esta tragédia absurda possa ter lugar, foi necessário tirar desta classe a consciência de sua exploração e de sua alienação. Aí está a estranha modernidade da nossa época.

Contrariamente aos escravos da antiguidade, aos servos da Idade média e aos operários das primeiras revoluções industriais, estamos hoje em dia frente a uma classe totalmente escravizada, só que não sabe, ou melhor, não quer saber.

Eles ignoram o que deveria ser a única e legítima reação dos explorados. Aceitam sem discutir a vida lamentável que se planejou para eles. A renúncia e a resignação são a fonte de sua desgraça.


"De la Servitude Moderne"
(França - Colômbia, 2009, 52min - Direção: Jean-François Brient)





13 de janeiro de 2012

O custo social da dívida

Entrevista com Maria Lucia Fatorelli, da Auditoria Cidadã da Dívida. 

"A dívida começou com o financiamento da ditadura militar".

Pagamento da dívida é a moderna forma de extorsão da ainda colônia brasileira. 



17 de novembro de 2011

A água é uma barreira para alimentar o mundo, diz novo diretor da FAO


O próximo diretor do Organismo das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês), o brasileiro José Graziano da Silva (agrônomo, formado em economia rural e sociologia, professor e escritor, foi ministro extraordinário de Segurança Alimentar e Combate a Fome, enquanto a pasta existiu, entre 2003 e 2004), declarou em entrevista à BBC que “a água foi convertida no principal obstáculo para aumentar a produção, especialmente em áreas como a região dos Andes, América do Sul, e os países ao sul do Saara”.



De acordo com estudos da FAO, em 2050 a produção de alimentos deverá ser 70% maior para acompanhar o ritmo de crescimento da população. Graziano afirma que, apesar da pressão sobre os recursos naturais imposto pelo crescente número de seres humanos sobre a Terra, é possível acabar com a fome com quatro ações principais. Aplicação de técnicas modernas de agricultura (muitas já disponíveis), criar uma rede de segurança social para as populações mais vulneráveis, recuperar para a agricultura os produtos locais e mudar os padrões de consumo dos países ricos.


“Se pudéssemos mudar os padrões de consumo dos países desenvolvidos, haveria comida para todos”, comenta Graziano. “Desperdiçamos muita comida, atualmente, não só na produção, como no transporte e no consumo”. Segundo ele, enquanto nos países ricos se desperdiça comida, um bilhão de pessoas passam fome. “Precisamos garantir que essas populações se alimentem, facilitar-lhes trabalhos bem pagos ou encontrar uma fórmula de proteção social”.


O brasileiro disse que os programas de transferência de dinheiro servem a cerca de 120 milhões de pessoas na América Latina, o que ajudou a reduzir as taxas de desnutrição na região. Ele defende a expansão desses programas a outros países com o mesmo problema, especialmente na África.


Mercados locais
Outra ação que poderia ajudar na luta contra a fome, argumenta o futuro diretor da FAO – que assume em 1º de janeiro de 2012 –, é recuperar a agricultura de produtos típicos de cada região. Ele acrescenta que, por esses produtos não serem matérias primas (ou “comodities”), não são afetados por mudanças repentinas de preços, beneficiando assim consumidores e produtores. Pode-se criar um ciclo de produção e consumo local.
“O que faz a comida cara é o transporte, porque a produção é muito barata. Se pudéssemos diversificá-la e tornar regionais os canais de distribuição, os preços seriam muito menores”. Graziano também afirma que estimular os produtos tradicionais ajudaria a diversificar as fontes de alimentos.
“Atualmente há poucos produtos responsáveis pela alimentação de sete bilhões de pessoas”. Conforme comentou na entrevista, a prioridade dada aos alimentos presentes nos mercados internacionais, por exemplo, reduzem a capacidade da América Latina na produção de feijão, uma fonte tradicional com alto valor nutritivo e baixo custo.
O problema da obesidade

A diversidade da produção agrícola também serviria para enfrentar outros problemas com relação aos alimentos – por exemplo, o aumento da obesidade, inclusive em países pobres. Graziano assegura que o número de pessoas com dieta inadequada ou com obesidade já está em dois bilhões, o dobro dos que passam fome. E atribui o fato ao estilo de vida moderna, que desestimula a atividade física e facilita o acesso à comida industrializada, normalmente com altas concentrações de açúcar. Por isso, o brasileiro acredita que a luta contra a obesidade deveria incluir campanhas educativas “que foram esquecidas”. Ele acrescenta, “acreditamos que nossas mães sabiam o que se devia comer. Nossas avós tiravam o alimento da horta, mas as mães de hoje querem comida rápida, porque passam muito tempo trabalhando fora de casa”.
Graziano argumenta que as multinacionais de comida rápica deveriam estar conscientes de sua responsabilidade neste quadro e aumentar a presença de alimentos crus em seus cardápios, como frutas e verduras.

Biocombustíveis
José Graziano, atual diretor regional da FAO para a América Latina e Caribe, destaca outros dois problemas que, junto à obesidade, são parte da recente discussão sobre a produção de alimentos ao redor do mundo – a suposta competição entre agricultura para a alimentação e a produção de biocombustíveis; e os riscos que a agricultura impõe à preservação do meio ambiente. Ele destaca que duas das três áreas que mais produzem biocombustíveis, Estados Unidos e Europa, verificaram aumentos nos preços de alguns alimentos por terem que competir com os plantios para a fabricação desses combustíveis. Na terceira área de grande produção, o Brasil, os estados que produzem etanol a partir da cana-de-açúcar não observam impacto nos preços dos alimentos, pois os plantios estão sendo feitos em terras que não eram produtivas e passaram a ser, graças à modernização das técnicas (e ao desmatamento extensivo e destruidor das florestas nativas – n do T. No entanto...) Graziano acrescenta que não há conflito entre a preservação ambiental e a necessidade de expandir a produção agrícola. “Assim como há colesterol bom e mau, isso acontece com os biocombustíveis” , diz ele. “A intensificação da produção através de tecnologias modernas, reduzindo o uso de fertilizantes e pesticidas, podem beneficiar enormemente o meio ambiente. Os avanços tecnológicos nessa direção deveriam acabar com esta dicotomia entre os ambientalistas e os agricultores”.


(N do T – Ele não diz como as mega-transnacionais dos transgênicos, dos fertilizantes e pesticidas mais mortais se colocam diante desse quadro. Nem aborda a estratégia, claramente executada por essas monstruosidades empresariais - como em várias áreas, como energia, transportes, medicinas, educação, comunicações, mineração, etc, etc. -, de concentração de poderes no setor de alimentos, na intenção também clara de controlar a alimentação no maior espaço possível do planeta, eliminando a autonomia da produção dos pequenos agricultores, e assim controlar também, sob chantagem, os governos fantoches das falsas democracias controladas nos bastidores pelos poderes econômicos. Na fala do futuro diretor da organização para a alimentação mundial, não há referência ao controle exercido pelas transnacionais sobre os governos, a partir do próprio império planetário atual, os Estados Unidos, incidindo diretamente sobre as políticas públicas, como ficou claríssimo no Brasil, com o processo criminoso de legalização dos transgênicos, cujas empresas produtoras fizeram distribuição ilegal e gratuita para os plantadores sulistas de soja - com promessas de lucros altíssimos -, que se encarregaram de pressionar o governo para a liberação, diante da iminência da safra proibida. O governo federal, ao invés de declarar o crime contra a soberania nacional, processar e multar os fazendeiros cúmplices do crime, apreender e destruir a safra geneticamente modificada, além de expulsar a empresa do país, bundou diante das pressões e se submeteu à maquinação multinacional, legalizando vergonhosamente as sementes transgênicas.


Sem esclarecer as causas de tanto deseqüilíbrio social no planeta, o predomínio das finanças, de bancos e empresas gigantescas sobre os poderes políticos e sociais, fica difícil enxergar o quadro todo e, por conseqüência, modificá-lo. Não percebemos o quanto fomos condicionados pelo trabalho midiático - usando a psicologia do inconsciente - nos nossos valores, comportamentos, desejos e objetivos de vida. Não percebemos que a sustentação desse sistema perverso tem base nisso. Exercemos a vida conforme esses condicionamentos, nos comportando como planejado e imposto pela propaganda explícita e subliminar, que cria falsos valores e objetivos insatisfatórios de vida, levando-nos ao conflito permanente, à insatisfação constante e às angústias de uma vida sem sentido real). 


(Tomado de BBC Mundo) Boletim CubaDebate 27.10.2011
Tradução – Eduardo Marinho 

do Observar e absorver 

8 de novembro de 2011

Modelo exportador do agronegócio obriga os brasileiros a importarem alimentos básicos

O agronegócio vive se gabando por sua suposta alta produtividade. No entanto, sua produção não vai para o prato dos brasileiros. Neste ano, a importação de alimentos básicos subiu para mais de 380%.

13 de outubro de 2011

O presente das nossas crianças


Sempre que começo a escrever sobre o capitalismo me sinto um ET, um ser de outra galáxia que acaba de pousar neste planetinha minúsculo perdido no meio da Via Láctea, pois a inevitabilidade do sistema, a crença messiânica em que representa o fim da história, a constatação resignada de que não haveria outro caminho, tudo isso deixa um travo na boca, um aperto no coração, a sensação de que a humanidade está condenada a se tornar mero alimento do capital. E todos sabem como os alimentos terminam…

Pensamos assim, que o homem é que possui a riqueza material e não o contrário apesar de que, em verdade, não percebemos quem possui a quem. Não conseguimos identificar a verdade imutável de que é o capital que possui o homem apenas porque, desde crianças, somos doutrinados a vê-lo em ação como se fosse manifestação de amor, de carinho, de desvelo, de doação àqueles que, por razões menos altruístas e mais do que tudo sociais, temos a obrigação social, moral e até genética de cuidar até que se possam cuidar sozinhos.

Tudo começou nas últimas décadas do século XX, quando o salto tecnológico da humanidade alcançou as raias do impossível e, de lá para cá, as mídias passaram a construir seres que podem ser teleguiados por corporações, se não nos valores fundamentais como religião ou política, ao menos no instintivo, onde o desejo de consumir é alimentado graças a mensagens subliminares que a comunicação nos implanta no quadrante inconsciente das personalidades.

Repare bem hoje nas famílias que deveriam estar celebrando o dia dedicado às suas crianças. Fique de olho em como aqueles que herdarão o mundo que estamos criando serão contemplados com avalanches de brinquedos, alguns mais caros – para os contemplados pela “magia” injusta do capitalismo – e outros “baratinhos” – para os aspirantes a entrar para a ordem restrita dos eleitos –, mas todos, sem exceção, substitutos do amor, do carinho e da atenção que são o que pedem esses seres que ensaiam os primeiros passos na estrada da vida.

Entrega de presentes, beijos, abraços, certa condescendência com o que não seria admitido em outros dias, passeios, cinema, restaurantes ou lanchonetes, comida insana e, ao fim, esquecimento, enquanto os familiares adultos se voltam a si mesmos sem jamais terem ido além da casca dos sentimentos das crianças, não as ouvindo e sentindo, não buscando conhecê-las, saber para onde seus corações e mentes estão indo e, daí, a surpresa quando crescem e descobrimos que jamais as conhecemos.

O capitalismo é, também, comodismo. Ante a “estafante” missão da paternidade, pais robotizados e filhos em processo de robotização fazem um pacto cínico de dar e receber não os sentimentos, os valores fundamentais do homem, a atenção, a cumplicidade, o compartilhamento, a adição ou a multiplicação familiar, mas, tão-somente, a subtração e a divisão…

O presente de que nossas crianças precisam não pode ser comprado. E não é caro. Temos disponível no reduto do inconsciente que faz com que nos questionemos, mesmo que por um instante, quando, por egoísmo, não damos aos filhos o que todo ser humano tem a dar, impedidos que estamos de entender que o ideário capitalista nos convenceu de que podemos nos poupar do trabalho de revolver os corações para encontrar o único presente que importa àqueles que colocamos no mundo.

"A globalização é uma uma nova forma de colonização"


Autor de estudos sobre o modo como as percepções de tempo e espaço se alteraram no mundo contemporâneo, o antropólogo francês Marc Augé reflete sobre essas mudanças em uma entrevista especial. "A distância entre ricos e pobres é cada vez mais importante, e a mesma coisa ocorre com o acesso ao conhecimento e à ciência. Eu diria que a globalização não difere muito da colonização. Vivemos um tipo de colonização anônima ou multinacional. A globalização nos emparelhou" afirma.

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23 de agosto de 2011

Governados por cegos e irresponsáveis



Por Leonardo Boff, no sítio da Adital:

Afunilando as muitas análises feitas acerca do complexo de crises que nos assolam, chegamos a algo que nos parece central e que cabe refletir seriamente. As sociedades, a globalização, o processo produtivo, o sistema econômico-financeiro, os sonhos predominantes e o objeto explícito do desejo das grandes maiorias é: consumir e consumir sem limites. Criou-se uma cultura do consumismo propalada por toda a mídia. Há que consumir o último tipo de celular, de tênis, de computador.

66% do PIB norte-americano não vem da produção, mas do consumo generalizado. As autoridades inglesas se surpreenderam ao constatar que entre os milhares que faziam turbulências nas várias cidades não estavam apenas os habituais estrangeiros em conflito entre si, mas muitos universitários, ingleses desempregados, professores e até recrutas. Era gente enfurecida porque não tinha acesso ao tão propalado consumo. Não questionavam o paradigma do consumo, mas as formas de exclusão dele.

No Reino Unido, depois de M. Thatcher e nos USA depois de R. Reagan, como em geral no mundo, grassa grande desigualdade social. Naquele país, as receitas dos mais ricos cresceram nos últimos anos 273 vezes mais do que as dos pobres, nos informa a Carta Maior de 12/08/2011. Então não é de se admirar a decepção dos frustrados em face de um "software social” que lhes nega o acesso ao consumo e face aos cortes do orçamento social, na ordem de 70% que os penaliza pesadamente. 70% dos centros de lazer para jovens foram simplesmente fechados.

O alarmante é que nem primeiro ministro David Cameron nem os membros da Câmara dos Comuns se deram ao trabalho de perguntar pelo porquê dos saques nas várias cidades. Responderam com o pior meio: mais violência institucional. O conservador Cameron disse com todas as letras: "vamos prender os suspeitos e publicar seus rostos nos meios de comunicação sem nos importarmos com as fictícias preocupações com os direitos humanos”. Eis uma solução do impiedoso capitalismo neoliberal: se a ordem que é desigual e injusta, o exige, se anula a democracia e se passa por cima dos direitos humanos. Logo no país onde nasceram as primeiras declarações dos direitos dos cidadãos.

Se bem reparamos, estamos enredados num círculo vicioso que poderá nos destruir: precisamos produzir para permitir o tal consumo. Sem consumo as empresas vão à falência. Para produzir, elas precisam dos recursos da natureza. Estes estão cada vez mas escassos e já dilapidamos a Terra em 30% a mais do que ela pode repor. Se pararmos de extrair, produzir, vender e consumir não há crescimento econômico. Sem crescimento anual os países entram em recessão, gerando altas taxas de desemprego. Com o desemprego, irrompem o caos social explosivo, depredações e todo tipo de conflitos. Como sair desta armadilha que nos preparamos a nós mesmos?

O contrário do consumo não é o não consumo, mas um novo "software social” na feliz expressão do cientista político Luiz Gonzaga de Souza Lima. Quer dizer, urge um novo acordo entre consumo solidário e frugal, acessível a todos e os limites intransponíveis da natureza. Como fazer? Várias são as sugestões: um "modo sustentável de vida”, da Carta da Terra; o "bem viver”, das culturas andinas, fundada no equilíbrio homem/Terra, economia solidária, bio-sócio-economia, "capitalismo natural” (expressão infeliz) que tenta integrar os ciclos biológicos na vida econômica e social e outras.

Mas não é sobre isso que falam quando os chefes dos Estados opulentos se reúnem. Lá se trata de salvar o sistema que veem dando água por todos os lados. Sabem que a natureza não está mais podendo pagar o alto preço que o modelo consumista cobra. Já está a ponto de pôr em risco a sobrevivência da vida e o futuro das próximas gerações. Somos governados por cegos e irresponsáveis, incapazes de dar-se conta das consequências do sistema econômico-político-cultural que defendem.

É imperativo um novo rumo global, caso quisermos garantir nossa vida e a dos demais seres vivos A civilização técnico-científica que nos permitiu níveis exacerbados de consumo pode pôr fim a si mesma, destruir a vida e degradar a Terra. Seguramente não é para isso que chegamos até a este ponto no processo de evolução. Urge coragem para mudanças radicais, se ainda alimentamos um pouco de amor a nós mesmos.