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9 de janeiro de 2017

Escritores da Liberdade


Uma jovem e idealista professora chega à uma escola de um bairro pobre, que está corrompida pela agressividade e violência. Os alunos se mostram rebeldes e sem vontade de aprender, e há entre eles uma constante tensão racial. Assim, para fazer com que os alunos aprendam e também falem mais de suas complicadas vidas, a professora Gruwell (Hilary Swank) lança mão de métodos diferentes de ensino. Aos poucos, os alunos vão retomando a confiança em si mesmos, aceitando mais o conhecimento, e reconhecendo valores como a tolerânica e o respeito ao próximo.


Assista pelo Netflix ou Youtube abaixo:






4 de novembro de 2016

Ver, primeiro.

Manter a população na ignorância e na desinformação é uma necessidade desta estrutura social. Uma necessidade permanente.
Conter as verbas públicas e pagar os juros de uma dívida inventada pra colocar o país de joelhos diante de banqueiros e magnatas estrangeiros, com a conivência permanente da "elite" local, entregar de graça as riquezas o país e o povo à exploração sem direitos, esses são os objetivos da atual gerência, dos novos capatazes à frente das instituições falsamente públicas. Os “donos” da fazenda nem moram nela. Apenas a sugam de todas as formas, com a conivência e a cumplicidade dos poucos privilegiados locais.
Não há disfarce convincente, o descaramento é resultado da confiança na eficiência da sabotagem total nos direitos humanos e constitucionais da população. Conta-se plenamente com a ignorância e a desinformação. Cara de pau sem limites. E ainda se pensa que há caminho dentro da institucionalidade pra reverter a situação... ingênuas ilusões... tá tudo dominado, infiltrado, influenciado, impregnado dos interesses vampirescos dos parasitas mundiais e locais. Em todas as áreas.
A mineradora que matou a vida do rio Doce está recebendo permissão pra funcionar – na verdade nunca parou, até hoje escuto o apito dos trens, coisa de oitenta por dia, em dois meses seguintes à avalanche de rejeitos que assolou o vale – o maior da região sudeste – , matando tudo o que encontrava pela frente. Por trás do descalabro na saúde pública, ressalva feita a enorme quantidade de servidores que dão seu jeito pra atender nas condições miseráveis de trabalho que encontra, estão os interesses de planos de saúde, de laboratórios e da indústria da medicina lucrativa, devidamente representados nos poderes públicos, sabotando o sistema público de saúde. A educação não interessa, simplesmente, aos interesses do punhado de parasitas podres de ricos. Enquanto a educação pública deve criar ignorância pra maioria, como se vê em qualquer lugar, a sabotagem é óbvia, a particular se destina à formação dos gerentes e chefes da maioria ignorantizada. Não era à toa o ódio a toda iniciativa de educação de qualidade, no interesse do desenvolvimento de todo o povo brasileiro, da formação de senso crítico, de visão de mundo, de relações sociais mais esclarecidas, na composição de uma sociedade mais harmônica. A barbárie é deliberada e estratégica. Relega-se a maioria à inferioridade, à pobreza, à exclusão, criam-se as condições de violência, de miséria e revolta, e o massacre publicitário-midiático vai convidar milhares ao crime, com o acesso ao consumo induzido como valor pessoal e social. Deforma-se a mentalidade dos agentes de segurança, impedidos de ter qualquer consciência social, implantam-se idéias falsas e sentimentos destrutivos, culpam as vítimas e os incitam à violência contra os pobres em geral. Está formada a guerra. Com o tempo, o histórico de mortes dos dois lados é combustível suficiente pra sustentar o ódio e os conflitos.
Os empresários do tráfico circulam seus exércitos divididos em facções, seguros das cordas que têm nas mãos. Afinal, financiam também campanhas eleitorais, midiáticas, publicitárias, como bancos, laboratórios, mineradoras, latifundiários, mega-empresas em geral. Há uma guerra nos morros e nas periferias, a mídia não fala nada, uma pincelada aqui e ali, sem possibilidade de unir os pontos. Os responsáveis últimos por esta situação não circulam pelo caos, têm suas fortalezas, suas ilhas, mansões bem cercadas e cuidadas por exércitos particulares, cercas eletrificadas, câmeras e sabe-se lá o que mais. Enquanto isso as instituições tratam de manter a estrutura como é, apesar das heróicas exceções pessoais.
É preciso desenvolver novos caminhos, pois os institucionais estão monitorados e controlados de todas as maneiras possíveis, além de algumas impossíveis. Ver direitinho como é a realidade, antes de decidir o que fazer ou como, pra não fazer das formas induzidas que, além de não afetar em nada a estrutura social, ainda colabora na construção da farsa democrática.

O despertar é lento, mas inexorável... as revelações se sucedem. Enxurrada delas.

21 de dezembro de 2015

A Vale da morte: Uma tragédia que poderá ficar impune!

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Por João Pedro Stedile
Da Caros Amigos


O rompimento das barragens de depósito de lixo tóxico da empresa VALE, nas localidades de Fundão e Santarém, no município de Mariana, produziu o maior desastre ambiental da história do Brasil e quiçá comparado aos maiores do mundo.


Suas consequências ainda são imensuráveis. Muitos mortos. Segundo os moradores dos dois distritos soterrados, Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, na sua contagem há mais de cem parentes desaparecidos. Ao contrário dos anúncios das estatísticas “oficiais” calculadas pela empresa que seriam 29. Milhares de pessoas perderam suas casas e fonte de trabalho.


O Rio Doce foi assassinado ao longo do trajecto de mais de 700 quilómetros, entre Mariana e sua foz, no Espírito Santo. Milhares de hectares agricultáveis estão inutilizados. Toda vida aquática do rio morreu. Milhares de pessoas foram prejudicadas pela falta de água potável. Ninguém pode calcular as consequências para vida marinha, com essas toneladas de lixo toxico no mar, eternamente!


Ninguém sabe quantos anos a natureza levará para recuperar essa biodiversidade ao longo da região do Rio Doce. A população não sabe que existem outras 48 barragens de mineradoras que podem ter o mesmo destino. Não sabe de que seria possível utilizar outras técnicas de protecção e de lixo tóxico, porém como a empresa busca lucro máximo, coloca o risco nas costas da população.


Apesar de tanto sacrifício humano e da vida na natureza, a imprensa burguesa se esforça para esconder seus verdadeiros culpados: a empresa VALE. Não é difícil para uma das maiores mineradoras do mundo utilizar sua assessoria de comunicação que tem mais de 200 jornalistas pagos para protegê-la. Usar as dezenas de deputados e políticos eleitos com seu financiamento. E usar suas influências no poder judiciário e nas igrejas para ocultar sua responsabilidade.


Quem, afinal vai arbitrar as indemnizações às famílias que foram atingidas directamente e a toda população da região? Quem vai determinar as multas por matar toda biodiversidade, numa das maiores bacias hidrográficas do país?


Até agora, o Ministério Publico, o poder judiciário e a comissão de parlamentares apenas quiseram aparecer na imprensa. E o governo federal se comportou como parceiro envergonhado da empresa. E outros políticos deram entrevistas na sede da empresa. Para denunciá-la ou protegê-la?


É hora da sociedade brasileira conhecer todos os desmandos da empresa VALE. Saber das dezenas de mortos provocados pela irresponsabilidade dos seus trens, carregando minério pro exterior. Saber que desde sua privatização em 96, e da lei Kandir de 95, no governo Cardoso, a maioria de seus accionistas são norte-americanos, e ela nunca mais pagou imposto de exportação sobre os mais de cem bilhões de toneladas de ferro, tomadas do povo e levadas pro exterior. Seus bilhões de dólares de lucro foram distribuídos entre seus accionistas. Nem o governo se beneficiou e muito menos o povo brasileiro. Graças à irresponsabilidade do governo FHC, as reservas de minério de ferro do Brasil, que são as maiores do mundo, foram roubadas e entregues a uma empresa agora sob controlo do capital estrangeiro, e de alguns oportunistas brasileiros.


Se tivéssemos um governo mais comprometido, o presidente da empresa já estaria preso. (Lembram-se da prisão do presidente da Petrobras como responsável da tragédia de Cubatão, São Paulo? Conseguiu habeas corpus e por ser de origem nipónica vive até hoje no Japão para fugir da cadeia).


Se tivéssemos um judiciário mais comprometido com o povo, o processo no tribunal federal de Brasília, que anulou o leilão da VALE, e por tanto, restituiria a empresa à condição de estatal, já estaria cumprido, e não seguiria nas gavetas protelatórias…destino de todos os julgamentos que afectam interesses do capital.


Esperamos que a população da região se organize, realize assembleias populares, construa uma pauta de reivindicações possa minorar os custos sociais e do meio ambiente e eleja seus verdadeiros representantes para negociar com força das massas frente aos interesses da VALE.


Santa paciência! Algum dia, nosso povo precisa se levantar contra tantas tragédias provocadas e contra tantos irresponsáveis que só actuam em favor do lucro máximo, para uma minoria, em detrimento dos interesses de toda a sociedade.

3 de dezembro de 2015

Educação enlatada - México

Em respeito aos professores e alunos das escolas da rede estadual de São Paulo, postamos novamente esse maravilhoso documentário sobre o que aconteceu com o México com uma partido neoliberal, muito similar ao partido do atual governador paulista.




Pulicado em 10 de Agosto de 2009:
Um documentário que todos os professores do mundo deveriam ver.

"Grain of sand" fala sobre a luta dos professores de Oaxaca no México, país governado há mais de 70 anos pelo PRI, famoso pela corrupção e alinhamento aos interesses dos EUA . O filme trata de como a destruição da educação é um projeto articulado a partir de diretrizes internacionais.


Há poucos anos, alunos, pais e professores fizeram passeatas contra a privatização das escolas técnicas, exigência do Banco Mundial e FMI. O Governo respondeu fechando-as de imediato. Quando os professores e alunos ocuparam estas escolas, foram presos e torturados em prisões de segurança máxima. Centenas de professores eforam mortos ou desaparecidos no país.


As políticas implementadas na educação mexicana são as mesmas que muitas vezes vemos travestidas de “modernas” em muitos Estados do Brasil. O filme proporciona excelentes discussões sobre o que representa a educação na sociedade capitalista neoliberal. O baixo nível das escolas para a população não é um produto da incompetência, mas sim da conivência para formar um geração de semi-escravos, de mão-de-obra barata.
Nas palavras de Eduardo Galeano, “Este é um sistema que arrebenta tudo o que toca: destrói em pedaços; e que nos ensina que se vive para TER e que se vive para trabalhar, em vez de viver para SER”
(Comentários originais: docverdade)

14 de julho de 2015

Discurso fundamental - Papa Francisco

Independente da religião, este discurso é fundamental para o desenvolvimento da humanidade. 


(O papa Francisco em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. Foto: José Lirauze/ABI)

Leia trechos do histórico discurso do Papa Francisco aos movimentos sociais na noite de quinta-feira 9 em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. No final do discurso de quase uma hora, o papa argentino pede que rezem por ele. Oxalá seja apenas força de expressão.

LÓGICA DO LUCRO – “Reconhecemos que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem teto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas na sua dignidade? Reconhecemos que as coisas não andam bem, quando explodem tantas guerras sem sentido e a violência fratricida se apodera até dos nossos bairros? Reconhecemos que as coisas não andam bem, quando o solo, a água, o ar e todos os seres da Criação estão sob ameaça constante? Então digamos sem medo: precisamos e queremos uma mudança.

Nas vossas cartas e nos nossos encontros, relataram-me as múltiplas exclusões e injustiças que sofrem em cada atividade laboral, em cada bairro, em cada território. São tantas e tão variadas como muitas e diferentes são as formas de enfrentá-las. Mas há um elo invisível que une cada uma destas exclusões: conseguimos reconhecê-lo? É que não se tratam de questões isoladas. Pergunto-me se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se tornou global. Reconhecemos que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza?

Se é assim, insisto, digamos sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos…. E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia são Francisco.”

GLOBALIZAÇÃO DA ESPERANÇA – “Queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança que toque também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença.

Hoje quero refletir convosco sobre a mudança que queremos e precisamos. Como sabem, recentemente escrevi sobre os problemas da mudança climática. Mas, desta vez, quero falar duma mudança noutro sentido. Uma mudança positiva, uma mudança que nos faça bem, uma mudança, pode-se dizer, redentora. Porque é dela que precisamos. Sei que buscais uma mudança e não apenas vós: nos diferentes encontros, nas várias viagens, verifiquei que há uma expectativa, uma busca forte, um anseio de mudança em todos os povos do mundo. Mesmo dentro da minoria cada vez mais reduzida que pensa sair beneficiada deste sistema, reina a insatisfação e sobretudo a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os liberte desta tristeza individualista que escraviza.”

DESTRUIÇÃO DA NATUREZA – “O tempo, irmãos e irmãs, o tempo parece exaurir-se; já não nos contentamos com lutar entre nós, mas chegamos até a assanhar-nos contra a nossa casa. Hoje, a comunidade científica aceita aquilo que os pobres já há muito denunciam: estão a produzir-se danos talvez irreversíveis no ecossistema. Está-se a castigar a terra, os povos e as pessoas de forma quase selvagem. E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava ‘o esterco do diabo': reina a ambição desenfreada de dinheiro. A atenção ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade entre os homens, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa comum.

Não quero alongar-me na descrição dos efeitos malignos desta ditadura sutil: vocês os conhecem! Mas também não basta assinalar as causas estruturais do drama social e ambiental contemporâneo. Sofremos de um certo excesso de diagnóstico, que às vezes nos leva a um pessimismo charlatão ou a rejubilar com o negativo. Ao ver a crônica negra de cada dia, pensamos que não haja nada que se possa fazer para além de cuidar de nós mesmos e do pequeno círculo da família e dos amigos.”

O PAPEL DE CADA UM – “Que posso fazer eu, recolhedor de papelão, catador de lixo, limpador, reciclador, frente a tantos problemas, se mal ganho para comer? Que posso fazer eu, artesão, vendedor ambulante, carregador, trabalhador irregular, se não tenho sequer direitos laborais? Que posso fazer eu, camponesa, indígena, pescador que dificilmente consigo resistir à propagação das grandes corporações? Que posso fazer eu, a partir da minha comunidade, do meu barraco, da minha povoação, da minha favela, quando sou diariamente discriminado e marginalizado? Que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele missionário que atravessa as favelas e os paradeiros com o coração cheio de sonhos, mas quase sem nenhuma solução para os meus problemas? Muito! Podem fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 Ts” (trabalho, teto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se apequenem!

Este apego ao bairro, à terra, ao território, à profissão, à corporação, este reconhecer-se no rosto do outro, esta proximidade no dia-a-dia, com as suas misérias e os seus heroísmos cotidianos, é o que permite realizar o mandamento do amor, não a partir de ideias ou conceitos, mas a partir do genuíno encontro entre pessoas, porque não se amam os conceitos nem as ideias; amam-se as pessoas. A entrega, a verdadeira entrega nasce do amor pelos homens e mulheres, crianças e idosos, vilarejos e comunidades… Rostos e nomes que enchem o coração. A partir destas sementes de esperança semeadas pacientemente nas periferias esquecidas do planeta, destes rebentos de ternura que lutam por subsistir na escuridão da exclusão, crescerão grandes árvores, surgirão bosques densos de esperança para oxigenar este mundo.

Vejo, com alegria, que trabalhais no que aparece ao vosso alcance, cuidando dos rebentos; mas, ao mesmo tempo, com uma perspectiva mais ampla, protegendo o arvoredo. Trabalhais numa perspectiva que não só aborda a realidade setorial que cada um de vós representa e na qual felizmente está enraizada, mas procurais também resolver, na sua raiz, os problemas gerais de pobreza, desigualdade e exclusão.

Felicito-vos por isso. É imprescindível que, a par da reivindicação dos seus legítimos direitos, os povos e as suas organizações sociais construam uma alternativa humana à globalização exclusiva. Vós sois semeadores de mudança. Que Deus vos dê coragem, alegria, perseverança e paixão para continuar a semear. Podeis ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, vamos ver os frutos. Peço aos dirigentes: sede criativos e nunca percais o apego às coisas próximas, porque o pai da mentira sabe usurpar palavras nobres, promover modas intelectuais e adotar posições ideológicas, mas se construirdes sobre bases sólidas, sobre as necessidades reais e a experiência viva dos vossos irmãos, dos camponeses e indígenas, dos trabalhadores excluídos e famílias marginalizadas, de certeza não vos equivocareis.

No coração, tenhamos sempre a Virgem Maria, uma jovem humilde duma pequena aldeia perdida na periferia dum grande império, uma mãe sem teto que soube transformar um curral de animais na casa de Jesus com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Maria é sinal de esperança para os povos que sofrem dores de parto até que brote a justiça.

POR UMA ECONOMIA DE INSPIRAÇÃO CRISTÃ – “Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra.

A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas a condigna administração da casa comum. Isto implica cuidar zelosamente da casa e distribuir adequadamente os bens entre todos. A sua finalidade não é unicamente garantir o alimento ou um ‘decoroso sustento’. Não é sequer, embora fosse já um grande passo, garantir o acesso aos ‘3 Ts’ pelos quais combateis. Uma economia verdadeiramente comunitária – poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã – deve garantir aos povos dignidade, ‘prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos’. Isto envolve os ‘3 Ts’, mas também o acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao desporto e à recreação. Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar de uma infância sem privações, desenvolver os seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de atividade e ter acesso a uma digna aposentadoria na velhice. É uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social. Vós, e outros povos também, resumis este anseio duma maneira simples e bela: ‘viver bem’.

Esta economia é não apenas desejável e necessária, mas também possível. Não é uma utopia, nem uma fantasia. É uma perspectiva extremamente realista. Podemos consegui-la. Os recursos disponíveis no mundo, fruto do trabalho intergeneracional dos povos e dos dons da criação, são mais que suficientes para o desenvolvimento integral de ‘todos os homens e do homem todo’. Mas o problema é outro. Existe um sistema com outros objetivos. Um sistema que, apesar de acelerar irresponsavelmente os ritmos da produção, apesar de implementar métodos na indústria e na agricultura que sacrificam a Mãe Terra na ara da ‘produtividade’, continua a negar a milhares de milhões de irmãos os mais elementares direitos econômicos, sociais e culturais. Este sistema atenta contra o projeto de Jesus.

A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, o encargo é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e às pessoas o que lhes pertence. O destino universal dos bens não é um adorno retórico da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada.”

PÁTRIA GRANDE – “Nos últimos anos, depois de tantos mal-entendidos, muitos países latino-americanos viram crescer a fraternidade entre os seus povos. Os governos da região juntaram seus esforços para fazer respeitar a sua soberania, a de cada país e a da região como um todo que, de forma muito bela como faziam os nossos antepassados, chamam a ‘Pátria Grande’. Peço-vos, irmãos e irmãs dos movimentos populares, que cuidem e façam crescer esta unidade. É necessário manter a unidade contra toda a tentativa de divisão, para que a região cresça em paz e justiça.

Apesar destes avanços, ainda subsistem fatores que atentam contra este desenvolvimento humano equitativo e restringem a soberania dos países da ‘Pátria Grande’ e doutras latitudes do Planeta. O novo colonialismo assume variadas fisionomias. Às vezes, é o poder anônimo do ídolo dinheiro: corporações, credores, alguns tratados denominados ‘de livre comércio’ e a imposição de medidas de ‘austeridade’ que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres. Os bispos latino-americanos denunciam-no muito claramente, no documento de Aparecida, quando afirmam que ‘as instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações’. Noutras ocasiões, sob o nobre disfarce da luta contra a corrupção, o narcotráfico ou o terrorismo – graves males dos nossos tempos que requerem uma ação internacional coordenada – vemos que se impõem aos Estados medidas que pouco têm a ver com a resolução de tais problemáticas e muitas vezes tornam as coisas piores.”

MONOPÓLIO MIDIÁTICO – “Da mesma forma, a concentração monopolista dos meios de comunicação social que pretende impor padrões alienantes de consumo e certa uniformidade cultural é outra das formas que adota o novo colonialismo. É o colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África, muitas vezes pretende-se converter os países pobres em ‘peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigante’.”

NÃO AO COLONIALISMO – “Temos de reconhecer que nenhum dos graves problemas da humanidade pode ser resolvido sem a interação dos Estados e dos povos a nível internacional. Qualquer ato de envergadura realizado numa parte do Planeta repercute-se no todo em termos econômicos, ecológicos, sociais e culturais. Até o crime e a violência se globalizaram. Por isso, nenhum governo pode atuar à margem de uma responsabilidade comum. Se queremos realmente uma mudança positiva, temos de assumir humildemente a nossa interdependência. Mas interação não é sinônimo de imposição, não é subordinação de uns em função dos interesses dos outros. O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os males que vêm juntos… Precisamente porque, ao pôr a periferia em função do centro, nega-lhes o direito a um desenvolvimento integral. Isto é desigualdade, e a desigualdade gera violência que nenhum recurso policial, militar ou dos serviços secretos será capaz de deter.

Digamos NÃO às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Bem-aventurados os que trabalham pela paz.”

PERDÃO AOS POVOS ORIGINÁRIOS – “Alguém poderá, com direito, dizer: ‘Quando o Papa fala de colonialismo, esquece-se de certas ações da Igreja’. Com pesar, digo: Cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus. Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM e quero reafirmá-lo eu também. Como são João Paulo II, peço que a Igreja ‘se ajoelhe diante de Deus e implore o perdão para os pecados passados e presentes dos seus filhos’. E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi são João Paulo II: peço humildemente perdão, não só para as ofensas da própria Igreja, mas também para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América. E junto, junto a este pedido de perdão e para ser justo, também quero que recordemos os milhares de sacerdotes, bispos, que se opuseram fortemente à lógica da espada, com a força da cruz. Houve pecado, houve pecado e abundante, e por isto pedimos perdão, e peço perdão, porém também ali, onde teve pecado, onde abundou o pecado, superabundou a graça através destes homens que defenderam a justiça dos povos originários.”

DEFESA DA MÃE TERRA – “A casa comum de todos nós está a ser saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave.Vemos, com crescente decepção, sucederem-se uma após outra cúpulas internacionais sem qualquer resultado importante. Existe um claro, definitivo e inadiável imperativo ético de atuar que não está a ser cumprido. Não se pode permitir que certos interesses – que são globais, mas não universais – se imponham, submetendo Estados e organismos internacionais, e continuem a destruir a Criação. Os povos e os seus movimentos são chamados a clamar, mobilizar-se, exigir, pacífica mas tenazmente, a adoção urgente de medidas apropriadas. Peço-vos, em nome de Deus, que defendais a Mãe Terra.”

MOVIMENTOS SOCIAIS – “O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Estou convosco. Digamos juntos do fundo do coração: nenhuma família sem teto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice. Continuai com a vossa luta e, por favor, cuidai bem da Mãe Terra.”

Veja aqui o texto na integra: http://pt.radiovaticana.va

2 de dezembro de 2014

O Brasil de Darcy Ribeiro

O Paraíso Perdido

Episódio de estreia traça um panorama da trajetória do renomado antropólogo
Série "O Brasil de Darcy Ribeiro" celebra o legado do saudoso antropólogo, educador e políticoSérie "O Brasil de Darcy Ribeiro" celebra o legado do saudoso antropólogo, educador e políticoAmiga do antropólogo, jornalista Ana Arruda Callado é entrevistada no primeiro episódioAmiga do antropólogo, jornalista Ana Arruda Callado é entrevistada no primeiro episódioCom depoimentos de amigos e do próprio Darcy Ribeiro, o episódio de estreia da série retrata a personalidade e a formação do renomado antropólogo e educador.
O programa traça um panorama da trajetória de Darcy desde Montes Claros e o ambiente familiar, passando pela influência da II Guerra em sua definição política no meio universitário e o despertar para a literatura em Belo Horizonte; até a decisão de estudar a natureza humana através de pesquisas com os índios.
A iniciação profissional, sob a égide do Marechal Rondon, leva-o às aldeias onde se deslumbra com a presença da beleza na sociedade indígena e a força da sua identidade. O Brasil mestiço seria a nova Roma chamada a representar um papel importante no mundo.
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52:50
Direção: Ana Maria Magalhães
Produção: Diogo Dahl

9 de novembro de 2014

Dom Helder Câmara - O Santo Rebelde

A trajetória de Dom Helder Câmara, um dos líderes político-religiosos mais importante e polêmico do Brasil no século XX. Ao longo de sua vida Dom Helder foi um incansável combatente à ditadura militar implantada no Brasil e também defensor de uma igreja católica mais próxima ao povo.

25 de setembro de 2014

Conferência com José Pepe Mujica

O presidente uruguaio, José Pepe Mujica, participou da conferência de abertura do Seminário Internacional Universidade, Sociedade, Estado, que aconteceu na UFRGS nos dias 10 e 11 de setembro. Na conferência, Mujica fala sobre paz, liberdade, solidariedade e felicidade, temas abordados em seus discursos, quando ataca a cultura consumista e a civilização do desperdício, e defende o respeito à vida.

"Defendam a vida humana"

22 de setembro de 2014

O Menino da Internet: a História de Aaron Swartz

O filme narra a história do jovem Aaron Swartz (1986-2013), um jovem programador norte-americano que acreditava na mudança radical do mundo através da internet e da computação. Durante toda a sua vida, Aaron usou a programação computacional como uma forma de nos ajudar a resolver problemas e tornar o mundo um lugar mais democrático, justo e eficiente. Em uma destas tentativas, Aaron irá usar a rede do MIT (Massachusetts Institute of Technology) para realizar o download massivo de milhões de artigos acadêmicos de uma base de dados privada chamada JSTOR. Nesse meio-tempo,  ele se torna um dos responsáveis pela não aprovação dos projetos de lei SOPA e PIPA que limitavam a democracia na rede. O Ministério Público dos Estados Unidos irá conduzir um processo criminal contra Aaron, , e que termina por levá-lo ao suicídio. Fonte: Daniel Valentim.

12 de setembro de 2014

Escócia Indedendente - O "Sim" ganha nas Sondagens.

por Filipe de Freitas Leal




As mais recentes sondagem referentes à tendência de voto dos escoceses, mostra que o "Sim" aproxima-se a passos largos da vitória, um facto que ao se consumar, permitiria a Independência e total soberania da Escócia, face ao resto do Reino Unido, ou mais precisamente à Inglaterra, o país que domina a Escócia, domínio que se consolidou com a junção dos dois parlamentos em 1702, durante o reinado da Rainha Ana, mas o sonho pela independência não acabou com a derrota de William Wallace, tornado mundialmente popular pelo filme de Mel Gibson, "Brave Heart".

A subida do SIM nas sondagens feitas este domingo pela empresa YouGov têm levado a uma desvalorização acentuada da Libra, segundo a empresa de sondagens, o sim, que há um mês tinha cerca de 22% aproxima-se dos 49%, tendo em conta a margem de erro de 2%, isto poderia traduzir-se numa possível vitória uma separação do Reino Unido. A verdade é que a tendência tem vindo a crescer acentuadamente, e muitas pessoa que antes eram pela manutenção no Reino Unido agora voltam-se para uma opção radicalmente oposta, que além de os retirar do seio do Reino Unido, a Independência total da Escócia coloca-a de fora da UE União Europeia.



Estas sondagens foram amplamente mediatizadas, e comentadas nos principais meios de comunicação, quer na BBC, SkyNews, The Times, entre outros. O Primeiro Ministro britânico David Camerom prometeu maior autonomia para a Escócia, algo que parece ser um contra-censo pois a Escócia já tem parlamento próprio, com partidos próprios e um Primeiro Ministro Alex Salmond, do SNP Scottish National Party (Partido Nacional Escocês) que vemos na foto ao lado do ator Sean Conery, um defensor do SIM; O Primeiro ministro escocês já veio a público desvalorizar as promessas do governo londrino, face ao pânico que a tendencia do SIM tem vindo a ter, o referendo está marcado para o dia 18 de setembro. E o mundo está de olhos postos neste referendo, pois dentro de dois meses poderá realizar-se outro na Catalunha do Presidente Artur Mas, no entanto hoje a maioria dos catalães já quer um adiamento do referendo.


Fontes e Referências:
(1): nota do autor.
Observador: O "Sim" da Escócia, está a afundar a Libra.
Diário de Notícias: "Yes" Ganha a 1ª sondagem e dá gás à Independência
Jornal "Público": Sondagem dá vitória aos independentistas no referendo escocês


http://obloghumanista.blogspot.com.br/2014/09/escocia-indedendente-o-sim-ganha-nas.html

22 de julho de 2014

S.Paulo sob a lógica do encarceramento fútil




Estudo da USP revela causas do aumento absurdo de prisões. Polícia é incapaz de investigar; Judiciário, na dúvida, condena. Ativistas são vítimas mais recentes

Por Bruno Paes Manso, em seu blog

Já foi dito que as perguntas certeiras são o ponto de partida para boas reportagens e pesquisas. Concordo e já coloco uma questão que há tempos me intriga: como São Paulo (e o Brasil) consegue mandar tanta gente para a prisão se possui uma polícia civil com sérias dificuldades para investigar? Já somos o terceiro País do mundo no ranking de pessoas presas, sendo que nas prisões paulistas há um terço do total de presos nacionais. Como produzimos provas para condenar tanta gente?

As respostas ajudam a decifrar como funcionam as engrenagens dessa fábrica de aprisionamento em massa que estamos construindo em São Paulo e no Brasil. O caso das prisões de Fábio Hideki e de Rafael Marques, detidos sob a acusação de prática de crimes durante os protestos em São Paulo, servem para mostrar a lógica desse mecanismo.

Os dois foram presos no dia 23 de junho numa manifestação na Avenida Paulista durante a Copa do Mundo. A Secretaria de Segurança Pública paulista defendeu a legitimidade das prisões afirmando ter provas de que eles portavam explosivos. Diversas testemunhas afirmaram, no entanto, que o flagrante foi forjado, incluindo o padre Julio Lancelotti, vigário do Povo da Rua, que estava ao lado dos jovens quando eles foram detidos. A SSP rebate e diz que o Ministério Público acompanha de perto as investigações e que os promotores denunciaram Hideki e Marques à Justiça.

Na semanas que se seguiram às prisões, campanhas foram feitas para que os dois fossem soltos, entidades contestaram a legitimidade da ação, o diretor da Politécnica da USP escreveu carta aberta, mil origamis de tsurus (pássaro da sorte) foram confeccionados para libertá-lo, houve manifestações em São Paulo, Guarulhos e Rio, juristas e juízes democráticos reclamaram, funcionários da USP marcharam, uma página no Facebook foi criada e recebeu mais de 6 mil curtidas, além de inúmeros memes que se espalharam pelas redes sociais.

Mesmo com a pressão legítima, baseada em depoimentos e vídeos que contestavam a credibilidade das ações da segurança pública e as decisões da Justiça, nossas instituições não se deram o trabalho de apresentar as supostas provas ou de justificar seus atos de força. Como se não se sentissem obrigadas a prestar contas de seus atos aos cidadãos que pagam suas contas. Talvez porque se sentem intocáveis. Porque acham que somos todos cegos, que não enxergamos os erros que eles cometem.

Mas já é possível juntar as peças. A figura do quebra-cabeças está ficando cada vez mais visível. A prisão de Hideki e de Marques é apenas a ponta de um profundo iceberg do frágil mecanismo de encarceramento de pobres moradores das periferias. Hideki e Marques foram exceção à regra.

Sem estrutura para realizar investigações competentes, o sistema de Justiça vem condenando faz tempo com base em frágeis evidências. Essa foi uma das principais conclusões da pesquisa feita por Maria Gorete Marques do Núcleo de Estudos da Violência (USP) sobre a aplicação da Lei de Drogas em São Paulo. Boa parte do crescimento do total de presos decorre do aumento da prisão de pequenos traficantes.

Em 2006, havia cerca de 17 mil presos por tráfico. Cinco anos depois, já era 52 mil. Conforme a pesquisa, quase nove entre cada dez prisões feitas no Estado foram ocorrências em flagrante, quando a maioria estava circulando na rua. A maioria (52%) não tinha antecedentes em sua ficha criminal e eram negros e pardos (59%). Na primeira etapa do processo de aprisionamento em massa, a polícia vê um negro em atitude suspeita andando na rua. Ele é abordado e preso em flagrante.

No Judiciário, o depoimento do policial militar que prendeu o suspeito acaba sendo sobrevalorizado. O que ele fala é considerado verdade, mesmo quando a vítima acusa o flagrante de ser forjado. Isso ocorre porque são depoimentos que gozam de fé pública, termo que define juridicamente os documentos e testemunhos que são dados por autoridades públicas no exercício de sua função. São presumivelmente considerados verdadeiros, o que acaba dispensando a necessidade de provas robustas para a condenação.

Na prática, isso significa que, depois de acusado pelo policial, o suspeito passa a ter que provar a sua inocência. As provas materiais do crime ou outros testemunhos de acusação acabam sendo meros complementos em muitos processos. O que não impede o promotor de acusar e o juiz de condenarem o réu. Na pesquisa do NEV-USP, as autoridades explicaram que a gravidade do crime justificaria a decisão de condenar com base em depoimentos de PMs e em provas frágeis.

Não foi o caso do crime Hideki e Marques. Não eram graves. Eles eram meros bodes expiatórios para que a segurança pública e o judiciário dessem uma resposta aos protestos durante a Copa do Mundo. Eles são black blocs? Só dando risada. Acompanhei o movimento e sei sobre os dois presos. Essa afirmação é ridícula. Mas qual é o ponto nevrálgico da questão? Depois de anos e anos prendendo e condenando por nada, nosso sistema já estava acostumado a engolir acusações mal feitas. Qual o problema em condenar mais dois sem que haja provas?

Será que eu estou sendo injusto com nosso sistema de segurança e de Justiça? Há apenas dois meses, eu me deparei com um caso emblemático que foi publicado neste blog em maio. Foi a história de José, um jovem negro de 17 anos que estava em seu apartamento num sábado à noite. A PM perseguia quatro assaltantes de carro pelas ruas. O grupo bateu em um poste durante a fuga, mas tiveram tempo de descer do carro e correr dos policiais. Os PMs acharam que um dos jovens havia subido em um edifício que ficava perto do local da batida. Era onde José morava. Falaram com o porteiro, invadiram o apartamento do garoto às 2 horas da manhã e o prenderam.

José tinha provas de que havia saído de casa somente para fumar no portão. As imagens das 19 câmeras do edifício eram claras. Batom na cueca. Mesmo assim, José continuou preso. O promotor pediu sua condenação e o juiz bateu o martelo. No processo, sobre as imagens que provavam a inocência do acusado, foi afirmado que o “condomínio não tinha fé pública”. O testemunho dos policiais foi suficiente para prendê-lo e condená-lo. As imagens de nada adiantaram. José foi solto apenas depois que a reportagem mostrou neste blog as provas de sua inocência. A Justiça foi forçada a soltá-lo no mesmo dia.

A sociedade merece respostas sobre o flagrante e as provas contra Hideki e Marques. As polícias demandam reformas urgentes. O Estado pode nos tirar os olhos, mas isso não significa que estamos cegos. Segue abaixo, aliás, o belo vídeo feito pela Ponte sobre Alex e Sérgio, fotógrafos baleados durante manifestações.

Não é a toa que querem privatizar as prisões, leia mais: 

21 de julho de 2014

Perseguida política, a advogada Eloisa Samy denuncia os abusos do Estado

A advogada militante pelos direitos humanos, Eloisa Samy, faz o seu depoimento e expõe os motivos pelo qual está sendo perseguida politicamente pelo Estado Brasileiro. Hoje (21), no Rio de Janeiro, a advogada requereu asilo político ao Consulado Geral do Uruguai, e permanece dentro da casa, em território fora da competência judiciária brasileira. A Polícia Militar posicionou o batalhão do choque nas imediações da embaixada e aguardam a saída de Eloisa Samy para cumprir mandado de prisão expedido na última sexta-feira (18).



17 de julho de 2014

Europa: A onda de ocupações de terra contra projetos imobiliários

por Francisco Colaço Pedro

À margem das instituições e da mídia, uma onda de ocupações de terras propaga-se pela Europa para reivindicar o direito à terra, deter a especulação imobiliária, implantar hortas comunitárias e centros de serviços públicos ou lazer, entre outras finalidades. Um dos casos de maior repercussão é o de Notre-Dame-des-Landes, no noroeste da França. Cerca de 40 mil pessoas entre famílias, jovens mascarados e agricultores da região ocupam 1,5 mil hectares pertencentes ao Estado e destinados à construção de um aeroporto. Elas estão determinadas a “lutar contra o avanço das obras, aprender a viver em conjunto, cultivar a terra e ter mais autonomia em relação ao sistema capitalista”. Há assembleias regulares, um jornal distribuído de bicicleta, padaria, biblioteca e até uma rádio pirata captada pelos usuários das autoestradas Vinci, a maior empresa de construção e concessões do mundo, responsável pelo projeto. Previsto para funcionar em 2017, o aeroporto foi adiado para 2020. Uma pesquisa mostrou 56% dos franceses contrários à obra, 24% favoráveis e o restante indefinido. Movimentos semelhantes brotam em outras regiões da França. Em Rouen e Dijon, terrenos são tomados para o cultivo de hortas comunitárias e bloqueio de projetos imobiliários. Em Avignon, uma manifestação contra a construção de uma autoestrada resultou na ocupação de casas e terrenos agrícolas.

Lei + aqui

26 de junho de 2014

De pernas pro ar - a escola do mundo ao avesso, de Eduardo Galeano

"Em 1960, os 20% mais ricos possuíam trinta vezes mais que os 20% mais pobres. Em 1990 a diferença tinha aumentado pra noventa vezes mais."

"Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento econômico declara que "dez pessoas, os dez mais ricos do planeta, têm uma riqueza equivalente à produção total de cinqüenta países. E 447 milionários somam uma fortuna maior que o ganho anual de metade da humanidade."

"A delinqüência do poder é a mãe de todas as delinqüências". Chamo a atenção pro fato de que não se deve confundir, como é comum demais, o poder com os governos. Governos são marionetes do poder, meras gerências sob o comando dos interesses empresariais, banqueiros, vampirescos. Democracia é farsa e tem sido assim desde o seu nascedouro - o do cenário, porque democracia nunca existiu por estas plagas."


De pernas pro ar - a escola do mundo ao avesso, de Eduardo Galeano



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