9 de agosto de 2010
Pobre, tanto faz chileno ou brasileiro...
Pablo Varas
Nada ofende mais do que a pobreza, esse estado em que tudo está longe, onde tudo é inalcançável, onde a vida é uma eterna subida íngreme. A vida é curta e todos deveríamos poder usá-la, enquanto está vigente, de maneira plena e sem sobressaltos.
A realidade é diferente, é dramática, é violenta e agressiva, todos os pobres do mundo têm coisas em comum e entre suas poucas propriedades está, sem dúvida, a vontade de sair da pobreza. Não dá pra acreditar nessas histórias de que os pobres são felizes, são falácias, enganos, conversa dos donos da força de trabalho dos pobres, para que eles não levantem a cabeça, para que se dêem por bem pagos com o pouco/nada que obtêm com seus salários, depois de longas jornadas de trabalho, e todos sabemos que as condições são muito precárias.
É preciso lembrar como os donos de quase tudo vêem, há muito tempo, os cidadãos que não são da sua classe: “Os donos do Chile somos nós, os donos do capital e do solo. O resto é massa influenciável e vendável.” Eduardo Matte – jornal El Pueblo, 19 de março de 1892.
Como não recordar o 11 de maio de 1903? Presidente do Chile Germán Riesco, cidade de Valparaíso, greve de trabalhadores portuários. Há uma lista de exigências como aumento de salário. Como resposta, militares nas ruas do porto e não há tiros para cima... não se conhece a exata quantidade de trabalhadores mortos.
Em 1906 acontece um grande terremoto em Valparaíso. Depois de vários dias sem água, nem alimentos, os pobres começam a descer dos morros, em busca de ajuda, sobretudo de água. O almirante Gómez Carreño ordenou a detenção de toda pessoa suspeita. Muitos foram amarrados a postes de iluminação e fuzilados ali mesmo... todos eram pobres.
Os jornais da época escreveram – “Com a finalidade de cumprir estas ordens, foram levados a efeito, na cidade, numerosos fuzilamentos, triste e dolorosa experiência, mas indispensável, na ocasião, para reprimir os desmandos desta turba inconsciente, sempre disposta à bandidagem e ao saque.”(1)
Nesta luta para melhorar as condições de vida, para poder se aproximar um pouco do futuro, os pobres se viram compelidos a se lançarem, muitas vezes, às ruas, tão só para pedir melhoras, que lhes melhorem os salários e o fazem porque o pouco não lhes chega ao mínimo. Como não lembrar, por exemplo, algo tão simples como exigir o pagamento em dinheiro e não em fichas. Massacre da Escola Santa Maria de Iquique. Presidente Pedro Montt, oficial responsável, general Silva Renard... milhares de famílias pobres assassinadas.
1919, greve de trabalhadores, Puerto Natales. Presidente Juan Luis Sanfuentes, ministro da guerra Ladislao Errázuris Zañartu. A manifestação foi reprimida pelo exército chileno e pela polícia argentina. São reconhecidos dezesseis mortos. Todos trabalhadores, todos eles pobres.
Em 1920 a polícia invadiu a sede da Federação Trabalhadora do Chile Foch, na cidade de Punta Arenas. A polícia atirou até esgotar suas munições e, depois de mais de meia hora de tiros, sem interrupção, encerraram seu patriótico trabalho queimando o sindicato. Sangue trabalhador cobre as ruas desta longínqua cidade do sul... todos pobres.
Os calendários estão repletos de massacres, os Zañartu, os Matte, os Bulnes, os Undurraga, os Ossa, os Montt, os Sanfuentes, sempre... desse lado, o lado de onde vêm as balas na direção do Chile dos pobres, Alto Biobio, Nitratúe, Ranquil, Lonquimay, e se continua matando, sem piedade, e se faz assim porque os interesses da classe dominante, os que se dizem donos do Chile, assim mandam.
Arturo Alessandri e o massacre do Seguro Obrero. Presidente Alfredo Duhalde e o massacre da praça Bulnes. Carlos Ibañez del Campo, Eduardo Frei em El Salvador e Pampa Irigoin e, depois, a ditadura militar, e também os assassinados durante os governos da Concertación (frente política formada pela composição de um leque amplo de forças sociais, econômicas e políticas – N do T).
Os ricos não fazem greves, nem lista de exigências. Os donos do poder só precisam bater nas portas dos quartéis militares, para que sejam assegurados seus pertences e interesses, para que seus benefícios estejam resguardados. Os ricos, a classe dominante, os donos dos grandes meios de produção (e de comunicação – N do T), este setor a quem se dão todas as concessões, para quem os governos permanecem e estão sempre a seu serviço. Os ricos, estes, que não têm bandeira, nem símbolos, nem sequer uma canção nacional, não lhes faz falta, pagam pouco e... têm os bancos.
E, por estes tempos de bicentenários, não se deve esquecer Manuel Carvajal, trabalhador assassinado na praça Echaurren, em 1903, nem José Briggs, Olea, Rodríguez, Díaz, Vergara, Calderón, dirigentes mineiros assassinados na Escola Santa Maria de Iquique, todos da classe trabalhadora, e outros milhares que caíram, na história do Chile, todos eles, pobres, do campo e da cidade.
(1) Patricio Manns. Chile: una dictadura militar permanente (1811-1999). Editorial Sudamericana. Santiago de Chile 1999.
Fuente: http://www.elciudadano.cl/2010/08/04/cuanto-vale-ser-pobre-chileno-o-mapuche/
Boletim Telesur de 9 de agosto de 2010 Tradução - Eduardo Marinho
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário